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Violência nas Escolas: qual o papel dos responsáveis pelas crianças e adolescentes

Fazendo uma busca rápida no significado de negligência, você, leitor, consegue ver na primeira linha escrita o termo “falta de cuidado”. Quando, de fato, essa falta de cuidado é associada à formação e educação de jovens, as consequências podem ser catastróficas e, por vezes, irreversíveis.

A exemplo é a onda de ataques violentos em escolas no Ceará e no restante do Brasil. Desde o dia 3 de abril, pelo menos 49 perfis em mídias sociais estão sendo monitorados pelas forças de segurança cearenses. Destes, 35 autorias já foram identificados. Ao todo, 22 pessoas foram conduzidas a unidades da Polícia Civil.  Também foram registrados casos em Santa Catarina, Minas Gerais e São Paulo. Especialistas, em entrevistas exclusivas ao OPINIÃO CE, defendem que os principais atores capazes de mitigar possíveis ações violentas são os responsáveis pelas crianças e adolescentes, seguido de um diálogo constante e direto com a escola.

Marília Barreira, doutora em psicologia, professora da Universidade de Fortaleza (Unifor) e integrante do Laboratório de Estudos sobre os Processos de Exclusão Social (LEPES), acredita que existem várias perspectivas que acusem como e porque os jovens cometem esse tipo de violência. A primeira delas é a partir de uma sociedade violenta, há uma educação violenta. “Vivemos um cenário de bastante violência. É importante ressaltar que violência não é só o ataque físico, mas também o próprio bullying, o cyberbullying, o falar mal de alguém. Dentro da sociedade brasileira atualmente superviolento, é preciso ter muito cuidado com a reprodução dessas violências”, destaca.

Ainda segundo a docente, é preciso avaliar também como os tipos de violência são reproduzidos nas grandes mídias, em vídeos na internet, dentro de casa e como é essa abordagem dos responsáveis, especialmente com meninos. “Muitas vezes o responsável diz: ‘se apanhar na escola e não revidar, quando chegar em casa apanha e novo’. Esse exemplo de comunicação de responsáveis com filhos reforça muito a questão da violência”, diagnostica Barreira.

É possível perceber, portanto, que o problema é visto como sistematizado, a partir de uma negligência generalizada de pilares sociais.

“As pessoas têm perdido cada vez mais a capacidade de dialogar e isso interfere diretamente no comportamento dos pais para os filhos. Além disso, no pós-pandemia, vivenciamos o aumento de diagnósticos de uma adolescência superpatologizada em que os índices de depressão e ansiedade aumentaram nessa fase da vida e isso interfere diretamente nesses ataques. Cuidar da saúde mental ainda hoje ainda envolve um preconceito muito grande”.

A psicóloga defende que exista, sim, uma parcela de responsabilidade da escola na formação de crianças e adolescentes, mas a “maior fatia precisa ser pensada pela família. Não adianta terceirizar isso. A escola pode promover debates, pode ter psicólogos em sua equipe”.

A partir de 2022, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) exige que o ambiente escolar trabalhe a educação sócio-emocional, porém, segundo a especialista, algumas escolas têm feito isso de uma maneira irresponsável no sentido de não conseguir, de fato, “aproximar essas questões das crianças e dos adolescentes e muitas vezes fazendo de uma maneira muito solta, não querendo adentrar em outros temas com receio do que a família vai achar ou de polêmicas que possam surgir”.

“A escola precisa ser responsabilizada naquilo que concerne a ela, principalmente na integração de projetos educativos que possam auxiliar nessa prevenção e também chamar os pais para essa responsabilidade”, completa.

Doutor em Educação, mestre e graduado em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e especialista em Saúde Mental pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), João Paulo Pereira, elenca a violência nas escolas numa combinação de múltiplos e complexos fatores.

São eles: propagação de ideologias extremistas, reacionárias, de apologia e espetacularização da violência e de discursos de ódio nos últimos anos (de cunho racista, misógino, machista), com participação decisiva de agentes políticos transformados em mitos; organização irrestrita de grupos on-line de cunho extremista, com a conivência das plataformas e apologia ao armamento da população e facilitação do acesso a armas.

“Chama atenção o perfil de adolescentes/jovens autores do massacres no Brasil e nos Eua: todos homens. Isso evidencia que um modelo de masculinidade tóxica tem sido gestado e reproduzido social e culturalmente, que, combinado aos fatores acima, potencializa a violência. Além desses pontos, é importante que, nesse contexto, evitemos espalhar boatos e nomes, mesmo que com a boa intenção de alertar parentes, amigos, colegas. Isso só contribui para criar ou potencializar pânico entre estudantes, familiares e profissionais da educação”, alerta o docente.

JOGOS ELETRÔNICOS TÊM INFLUÊNCIA?

Em recentes ataques registrados, como na Vila Sônia, em São Paulo, e em Aracruz no ano passado, o autor estava usando uma máscara de esqueleto conhecida como “siege mask”, utilizada pelo personagem Ghost da franquia de jogos Call of Duty. Essa máscara se popularizou em fóruns de gamers extremistas e tornou-se um símbolo de identificação de simpatizantes neonazistas em todo o mundo. Atualmente, é uma marca presente em ações da extrema-direita.

Foto: Reprodução/ Governo do Ceará

A máscara também foi vista durante a invasão do Capitólio, em janeiro de 2021, por uma multidão insatisfeita com a derrota do ex-presidente Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Ela também foi usada nos atos antidemocráticos ocorridos em Brasília, em 8 de janeiro do mesmo ano, quando um homem com a máscara foi captado por câmeras de segurança entre os apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro que depredaram o Palácio do Planalto e defendiam uma intervenção militar para depor o governo recém-iniciado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Alguns pesquisadores afirmam que a “siege mask” foi adotada por grupos de extrema-direita devido às suas semelhanças com a caveira usada como emblema pela Totenkopf, uma divisão da SS, organização paramilitar ligada ao Partido Nazista que atuou diretamente no Holocausto. Essa máscara também está associada ao massacre ocorrido em 2019 na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, onde um dos responsáveis pelo crime aparecia em fotos nas redes sociais usando a mesma máscara.

A neuropsicóloga e diretora do Neuropsicocentro, Silviane Andrade, avalia que jogos violentos e desafios promovidos pelas redes sociais induzem os jovens mais vulneráveis a cometerem esses crimes. Há estudos mostrando que, quando foi passado a série nos EUA “13 reasons why” aumentou muito o número de suicídios.

De acordo com Andrade, a família dos jovens, junto à escola, deve voltar-se para a criação e formação das crianças e adolescentes, assim como a mídia, enquanto propagadora. “Desenvolvimento de programas de inteligência emocional nas escolas e junto as famílias, evitar que a mídia divulgue essas ações, pois se eles fazem isso para serem notados, se perceberem que não haverá plateia, certamente, não o farão e a companhamento rigoroso por parte da polícia responsável por crimes na internet para identificar esses grupos e agir prontamente”, enumera a especialista.

A psicóloga Renata Santana, que atua em Fortaleza e em Aracati, reforça que esses ataques possuem uma relação direta com a vulnerabilidade e desamparo dos jovens que são mais passíveis a forte influência cultural extremista e armamentista, além do aumento significativo ao acesso a armas de fogo, e demais tipos de armas associadas “a ideologias radicais que disseminam discursos de ódio, vingança, misoginia, racismo que são exemplos sociofamiliares transmitidos nas mais diversas plataformas, e em especial, Grupos on-line e Redes Sociais”, salienta.

Ainda segundo a especialista, os jogos violentos se tornam o escape para a solidão, para o tédio, e estão aí disponíveis como um substituto na ausência, ou na indisponibilidade dos responsáveis. “A falta de monitoramento e limites vêm como um grande problema que favorece a propagação de brincadeiras e jogos violentos”, finaliza.

ÚLTIMAS AÇÕES DO GOVERNO

Prefeituras de todo o Estado intensificam a segurança em instituições de ensino municipais e prestam solidariedade às vítimas do ocorrido. O Programa Ronda Escolar, cujo objetivo é prevenir e coibir ocorrências relacionadas a atos violentos e ameaças contra a comunidade escolar, começou a ser aplicado nesta semana. Mais de 1,5 mil unidades de ensino já foram visitadas pela PMCE. Além disso, o Governo do Ceará lançou, na última semana, por meio das secretarias da Segurança Pública e Defesa Social e da Educação, a cartilha de orientações para a prevenção e combate da violência dentro do ambiente escolar.

O documento foi apresentada durante reunião que contou com representantes da educação e segurança do Estado, do Ministério Público do Ceará (MPCE), da Associação dos Municípios do Estado do Ceará (Aprece), Sindicato das Escolas Particulares e outros órgãos.

Empenhado em combater o pânico e ser efetivo na prevenção da violência no contexto escolar, o governo estadual divulgou a cartilha nas redes sociais. O secretário da Segurança Pública, Samuel Elânio, destacou a importância do documento para orientar a comunidade escolar sobre como agir em uma eventual situação de risco. “Essa é uma cartilha para ser difundida entre as escolas, os diretores, os alunos, os pais e todo mundo que está envolvido nesse trabalho e assim a gente conseguir evitar maiores problemas, com uma atuação conjunta de todos”, ressaltou o secretário.

“É uma cartilha simplificada orientando como os diretores, os professores, os próprios alunos, devem agir em qualquer situação que ofereça risco”, explicou.

No documento, estão presentes orientações como: o aumento de controle ao acesso nas escolas; em caso de suspeita sobre planejamento de ato violento, fica recomendado ligar para contato 181 ou encaminhar registros de tela para o WhatsApp (85) 3103-0181 – contato criado para diretamente para esse tipo de denúncia; verificar a veracidade das informações recebidas, entre outras orientações.