O Carnaval 2023 é o retorno dos encontros e das comemorações coletivas nas ruas. Refletindo que neste ano será o primeiro ciclo pós-pandemia, a festa tem ainda mais presente a vontade do espaço público com pessoas coloridas e reunidas nas praças, ruas, parques, praias, assim como também em clubes e bares experiências que estavam em suspensão nesses últimos anos de pandemia.
Laís Cordeiro, mestre em Sociologia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) e bacharel em Ciências Sociais também pela instituição, é especialista em temas relacionados à Cultura Popular, ao Patrimônio Cultural, Festas e a Políticas Públicas de Cultura. A socióloga fala em entrevista ao OPINIÃO CE sobre o tema. Confira.
OPINIÃO CE: O que é o Carnaval em 2023? Pode ser considerado um fato social? Por quê?
LAÍS CORDEIRO: O Carnaval de 2023 é o retorno dos encontros e das comemorações coletivas nas ruas. Refletindo que neste ano será o primeiro pós-pandemia, consideraria que a festa tem uma importância ainda mais significativa enquanto uma celebração à vida. O Carnaval tem forte presença no espaço público, nessa reunião das pessoas nas praças, ruas, parques, praias, assim como também em clubes, bares; experiências que estavam em suspensão nesses últimos anos de pandemia. É perceptível certa expectativa do público pela realização da festa desde o início do ano.
Presenciamos aqui em Fortaleza a realização do pré-carnaval em polos organizados pela Prefeitura de Fortaleza e também em eventos privados e a quantidade de pessoas nos mostra essa saudade que os foliões estavam da festa. E, sim, o Carnaval é um fato social. Festividades com recepção tão popular como o Carnaval, o São João, e tantas outras, refletem aspectos da própria produção social da nossa cultura, da nossa sociabilidade. A sociedade e a cultura se expressam também por meio dessas festas, através delas podemos perceber traços e componentes sociais.
Por exemplo, podemos investigar questões sobre a disposição do espaço urbano nas cidades, as relações de gênero, os impactos econômicos e do turismo nessas datas comemorativas, a produção e circulação de políticas públicas tendo como campo de pesquisa a realização dessas festividades.
Com uma dimensão social tão significativa, as festas traduzem seu tempo sócio-histórico, por isso são momentos chaves de observação, análise e compreensão das experiências sociais.
OPINIÃO CE: Atualmente, Fortaleza possui um Carnaval diverso e plural. A que se deve essa tendência?
LAÍS CORDEIRO: É importante que essa diversidade aconteça e seja valorizada. O Carnaval reúne uma pluralidade de expressões da cultura na cidade; são maracatus, blocos, afoxés, escolas de samba, show de artistas com apresentações em ritmos variados, do Axé à música Pop. O Carnaval em sua dimensão social reverbera essa diversidade como um componente central de sua representação como símbolo da cultura brasileira. Se
compreendemos a cultura não mais em uma unicidade, mas no plural, o Carnaval não poderia apresentar uma única forma de expressão.
Há, portanto, na trajetória social da própria festa esse elemento da diversidade como norte para sua realização. Uma diversidade que não deve ser pensada somente numa perspectiva artística, mas também na presença dos grupos sociais, dos corpos que movimentam a festa, nas formas de vivenciar esse tempo festivo e com a garantia de acessibilidade aos espaços e programações.
OPINIÃO CE: Em relação ao Maracatu de Fortaleza, acha que tem diminuído de significado?
LAÍS CORDEIRO: Hoje, na cidade temos grupos como Az de Ouro com quase 90 anos de fundação, nascido em 1936, e o Rei de Paus que completará 70 anos no ano que vem. No âmbito municipal, o maracatu é patrimônio cultural imaterial de Fortaleza com registro aprovado em 2015 pelo Conselho de Proteção do Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor). E grupos como Az de Ouro, Rei de Paus e Vozes da África são também titulados como Tesouros Vivos da Cultura pela Secretaria Estadual da Cultura do Ceará (Secult/CE).
Tais ações de reconhecimento sobre a manifestação cultural e seus expoentes por parte das secretarias de cultura deveria implicar numa melhor garantia de subsídios aos grupos para a realização de suas atividades. Contudo, a realidade recorrente são editais com distribuição de recursos que não corresponde aos custos das agremiações ou que não conseguem atender ao número de maracatus inscritos, fazendo com que alguns grupos não recebam o fomento esperado para o desfile de Carnaval. Sem contar que aqueles que são contemplados com o recurso costumam receber o fomento às vésperas da festa.

Fatores que precarizam a produção desses maracatus, que conseguem organizar seus desfiles contando com a colaboração de seus brincantes e amigos vizinhos às suas sedes. Essa situação de precariedade é imprópria frente à relevância que o maracatu cearense ocupa no campo cultural do estado diante da sua importância social e histórica.
OPINIÃO CE: Geralmente, as festas de Carnaval são na rua e de graça, mas há também uma tendência de alguns blocos serem pagos. Isso fere o conceito do festejo?
LAÍS CORDEIRO: Penso que a presença de festas pagas com temática carnavalesca não chega a ser um problema em si. O Carnaval movimenta uma economia nesse setor de bares e eventos, assim como também no âmbito do turismo em geral, fazendo circular recursos e gerando empregos. De maneira prática, podemos pensar, por exemplo, que a realização dessas festas em bares e clubes pode garantir uma renda para músicos, produtores culturais, vendedores ambulantes, motoristas por aplicativos.
Surgiria um alerta de preocupação se somente festas pagas existissem, pois sabemos que isso implicaria em quem poderia pagar ou não o ingresso e acessar aquele espaço. O Carnaval tem uma dimensão de agregar públicos com origem e condição socioeconômica diversas, mas sabemos que esses públicos irão vivenciar a festa de formas diferentes em acordo com as condições materiais de existência de cada um. Se não houver a festa pública muita gente poderá ficar de fora do Carnaval.
Dessa forma, é importante enfatizar a importância do fomento de políticas públicas de cultura para celebrações e festividades como o Carnaval, pois espera-se com isso a democratização da fruição da cultura, um direito a ser garantido.
OPINIÃO CE: Qual a definição sociológica do Carnaval?
LAÍS CORDEIRO: O Carnaval é uma festividade protagonista entre as celebrações populares da cultura brasileira, reúne públicos diversos, ocupa espaços e territórios em todo país, agrega expressões simbólicas e materialidades do patrimônio histórico cultural. Os muitos carnavais pelo país enfatizam e difundem traços da diversidade sociocultural que nos representa como sociedade.
O Carnaval é objeto de estudo e análise acerca do meio social por reverberar questões de complexidade e caráter variados que nos ajudam a lançar reflexões sobre a formação da sociedade e sua configuração contemporânea. Há muitas dimensões imbricadas nessa festa, desde o simbólico produzido nas experiências coletivas que nos possibilita entender a produção social da cultura, e também outros aspectos, como o impacto do Carnaval na circulação da economia, do turismo, das composições dos espaços públicos, a execução de políticas públicas de cultura, etc.
As festas estabelecem interpretações sobre o meio social através das ações e sentidos sociais que empreendem. São momentos, inclusive de manifestação de críticas, de desconfortos, de incômodos por parte da população em relação a condições sociais cotidianas. A festa também é política! O Carnaval permite ainda em sua face artística a vivência de momentos extraordinários, de subversão da realidade, de criação e reelaboração de construtos sociais diante da possibilidade dos foliões assumirem personagens e papéis distintos do que vivem no dia a dia naquele tempo situado da festa.
O Carnaval amplia as formas de habitar o mundo! Dessa forma, a festa carnavalesca nos permite compreender o social por diferentes perspectivas de análise e sua capacidade de reinvenção ao longo dos processos históricos ampliam essas direções de investigação sociológica e antropológica a cada temporalidade.
