A primeira reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) do governo Lula (PT) acontece hoje (16) após dias de embate a respeito da meta de inflação e taxa de juros entre o presidente da República e Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central (BC).
Entretanto, após aceno público de Campos Neto a Lula, Fernando Haddad, ministro da Fazenda, afirmou na terça-feira, 14, que o assunto não está na pauta da reunião. O debate sobre mudança das metas de inflação foi iniciado pelo presidente da República, que vinha criticando publicamente a taxa de juros – atualmente em 13,75% – e as metas de inflação, de 3,25% para 2023 e 3% para os dois próximos anos. Na avaliação do Planalto, é necessário uma redução da Selic para estimular a economia e a concessão de crédito.
Além disso, Lula julga que, com uma meta maior, seria possível reduzir os juros para um patamar próximo de 12% no fim no ano, com cortes consecutivos de 0,25 e 0,50 ponto porcentual, afirmaram técnicos do Ministério da Fazenda. As projeções do Focus apontam para uma Selic ao final deste ano em 12,75%.
Em resposta às críticas que tem recebido do governo, durante entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira, 13, Campos Neto disse que uma mudança da meta de inflação teria como “efeito prático a perda de flexibilidade”.
O presidente do BC defendeu, ainda, um “aperfeiçoamento” no sistema de metas, mas disse que em nenhum momento isso significa revisar o patamar deste e do próximo ano para o controle da inflação. “Em nenhum momento a gente defende simplesmente aumentar a meta, no sentido de ganhar flexibilidade, mesmo porque não é nossa crença. A gente acredita que, se faz uma mudança de meta no sentido de ganhar mais flexibilidade, o efeito prático vai ser perder flexibilidade”, afirmou Campos Neto.
Ao esclarecer a razão pela qual o assunto não será discutido na reunião de hoje, Haddad expôs: “Não está na pauta do CMN. Existe uma coisa chamada Comissão Técnica da Moeda e do Crédito (Comoc) e pré-Comoc – reuniões prévias do CMN – que definem a pauta do CMN. A discussão do regime de metas não está na pauta”.
Além do ministro da Fazenda e do presidente do BC, a ministra do Planejamento, Simone Tebet, também compõe o Conselho. Apesar da trégua sinalizada por Haddad e Campos Neto, é cedo para afirmar que o tema saiu de cena. A avaliação entre integrantes da equipe econômica é que eventual mudança na meta agora causaria mais ruído, sem trazer efeitos práticos, diante das sinalizações feitas pelo presidente do BC. Técnicos do governo, no entanto, não descartam mexer na meta na reunião do CMN de junho, quando normalmente esse assunto é discutido.
IMPACTOS NO CEARÁ
Ao OPINIÃO CE, o professor de economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Fábio Sobral, explicou que economia cearense, assim como as dos demais estados do Brasil, depende que a taxa de juros caia. Segundo ele, uma redução na taxa estimularia o crescimento econômico no Estado.
“Com a redução da taxa, a remuneração dos títulos da dívida pública diminui e isso passa a levar o dinheiro que estava em aplicações financeiras para investimentos produtivos. Esses investimentos criam empregos, são pagos salários, cresce a massa de consumidores e estimula o crescimento econômico. Então, a taxa de juros é central para o Ceará, devido a essa competição entre aplicações financeiras e investimentos produtivos, afirma Sobral.
Para Ives Castelo Branco, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará (Ibef-CE), a discussão “assusta o mercado e reduz as previsões de crescimento da economia”, impactando não só a economia do Ceará, mas também a de todo o país.
Questionado sobre uma possível redução na Selic, Castelo Branco acredita que não aconteceria de maneira imediata, mas não descarta a expectativa ainda para este ano. “No final de 2023, já é esperada uma queda, chegando a um patamar de 12,50% e ao final de 2024 de 10%. Esse cenário pode ser alterado se houver uma piora das perspectivas inflacionárias, com risco até de elevação dos juros”.
