Um mar de luzes forma as ruas de Juazeiro do Norte no dia 2 de fevereiro. A chamada “procissão luminosa”, marcada em maioria por velas — em menor número, os candeeiros e as lamparinas ainda circulam — faz parte da Romaria de Nossa Senhora das Candeias, a terceira maior do calendário da terra do Padre Cícero. Para muitos, a mais bela celebração religiosa no Ceará.
Anualmente, entre o final de janeiro e o início de fevereiro, a Romaria de Candeias reúne cerca de 250 mil pessoas. Apenas a procissão luminosa, estima-se uma participação de 60 mil pessoas, segundo a Secretaria de Turismo e Romaria do Município (Setur). Mas, ao contrário das romarias de Nossa Senhora das Dores e Finados, a festa de Candeias é marcada por mistério.
A celebração remonta à época de Cristo. A data marca 40 dias após o nascimento de Jesus. “Os dias de resguardo, em que a mulher é considerada impura, não poderiam entrar no templo”, conta a historiadora e professora da Universidade Regional do Cariri (Urca), Fátima Pinho. A “Virgem da Luz” teria aparecido na ilha de Tenerife, na Espanha, em 1400, mas a devoção em torno da santa se espalhou, principalmente, por Portugal.
A antropóloga Renata Marinho, também professora da Urca, explica que a versão mais popular é de que, do crescimento do povoado no final do século XIX, em busca de alento espiritual e material, surgiu a necessidade de gerar emprego. Um serralheiro, passando por dificuldades, pediu ajuda ao Padre Cícero, que o orientou a fabricar candeeiros.
“Pouco antes da data da celebração, ele teria recomendado que os devotos comprassem os candeeiros para uma grande procissão que aconteceria no dia 2 de fevereiro”, descreve. A historiadora Fátima Pinho também não encontrou uma data que marca o início da procissão. “Em tudo que já li, nas décadas de 1910 e 1920, também não há alusão a essa romaria”.
Mas ela não descarta que a versão popular seja verdadeira. “A narrativa oral nasce de algum lugar. Ela vai sendo reelaborada, ressignificada, acrescentada elementos, mas não nasce do nada”. Outra possibilidade foi encontrada em um cordel. Em 1897, houve uma procissão de velas que seria para “iluminar” a mente do bispo Dom Joaquim Vieira para que olhasse com carinho para os chamados “milagres de Juazeiro”. Na época, a Igreja Católica já teria reprimido com força os eventos em torno da hóstia ter se transformado em sangue na boca da beata Maria de Araújo.
Uma narrativa muito semelhante à atual procissão foi publicada no jornal O Estado do Ceará, em 1891. No entanto, ocorreu na Sexta-feira da Paixão de Cristo. Nela, o jornalista José Marrocos descreve que mais de 20 mil pessoas participaram da caminhada. “No meio, pois, deste mar de luz avultava, como soberana, a imagem sacrossanta da Mulher das Dores”, escreveu. “A descrição é muito parecida, mas na época também não existia iluminação pública, então era comum o uso”, completa Pinho.
