A derrota do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nas urnas nas eleições de 2022 e a mais recente, no Senado, com a vitória de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para a presidência da Casa, apontam para o futuro do grupo político representado pelo militar e as perspectivas de manutenção de uma extrema-direita forte no Brasil.
Isso porque, a despeito de sair derrotado, Bolsonaro provou que tem capital político nos dois pleitos. Contra o presidente Lula (PT), ele perdeu por uma diferença pequena de pouco mais de 2 milhões de votos, e conseguiu ainda uma votação expressiva para o seu representante no Senado, Rogério Marinho (PL-RN).
Na eleição para a presidência do Congresso, que aconteceu no último dia 1º de fevereiro, a atuação do ex-presidente nos bastidores foi responsável por parte do 32 votos de Marinho, em uma eleição apertada. Rodrigo Pacheco teve 49 votos. Para o cientista político e professor-adjunto do Departamento de Ciências Sociais, da pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Clayton Mendonça, “foi uma votação significativa que mostra que vai ter um núcleo opositor que não pode ser desprezado”.
“Essa quantidade de votos que ele [Rogério Marinho] obteve, por exemplo, é mais do que suficiente para instalar alguma CPI no Senado que queira investigar o Governo Federal. Então, dá pra gente imaginar que se por acaso aparecer algum indício de escândalo, algum problema mais constrangedor, alguma denúncia de corrupção, qualquer coisa que possa ser utilizada como pretexto para instalação de uma CPI que possa investigar e desgastar o Governo Federal, tudo indica que esse grupo no Senado assim o fará”, aprofunda.
A demonstração de força e atuação desse grupo ficou mais que provada no Legislativo. Em 2018, a chamada “onda bolsonarista” foi responsável por eleger aliados do ex-presidente em todo o Brasil, tanto nas assembleias legislativas quanto nos governos estaduais e no Congresso Nacional. Sobre o que foi assistido naquele ano, o cientista político, doutor em Direito (USP) e livre-docente em Ciência Política (Uece), Filomeno Moraes, comenta.
“Com a carga de ambiguidades de que dispõe, o bolsonarismo é um fato. Se conseguirá sobreviver, em que medida e em que lapso temporal, é problema que só o tempo conseguirá encaminhar. Mas, a eleição do presidente da República em 2018, bem como as eleições parlamentares do mesmo ano revelaram algo novo no processo político brasileiro, a saber, a revelação de uma camada social trabalhável para uma concepção radicalmente contrária ao experimento democrático-constitucional que se inicia com a Constituição de 1988”.
Mesmo mais tímido em 2022, o fenômeno manteve sua relevância, pois o PL de Jair Bolsonaro elegeu a maior bancada na Câmara e Senado. Foi a inserção mais expressiva em 24 anos para o partido, que pode ser atribuída à filiação do ex-presidente à legenda em 2021.
Apesar de aparecer em desvantagem na disputa para o segundo turno presidencial, Bolsonaro provou ainda sua influência não só para eleger aliados, mas também para punir direitistas que romperam com o seu governo. Assim, até o presente momento, o grupo que faz frente de oposição a Lula no parlamento ainda precisa se apoiar na imagem do ex-presidente
“A gente viu nesses últimos quatro anos foi que lideranças que surgiram muito associadas ao ex-presidente Bolsonaro num primeiro momento, mas que tentaram mostrar alguma independência e até mesmo o desejo de concorrer contra ele, acabaram sendo afastados pelo próprio Bolsonaro, como foi o caso do ex-governador do Rio, Wilson Witzel, e do ex-governador de São Paulo, João Doria. Também a ex-deputada Joice Hasselmann, que começou a se mostrar crítica, foi tratada como traidora e não conseguiu se reeleger e com o ex-deputado Alexandre Frota a mesma coisa”, destaca Clayton Mendonça.
O BOLSONARISMO RESISTE?
Para o cientista político, no entanto, há ainda um caminho a ser observado no futuro reservado ao ex-presidente caso as investigações que o envolvem avancem.
“O fato de ele ter problemas na justiça que poderão vir a renda a ele inclusive a cadeia ou, se não chegar a isso, pelo menos a perda de direitos políticos em uma condenação, levantam as dúvidas de até quanto tempo ele vai continuar sendo do expoente maior desse grupo. Mas a princípio eu diria que a gente pode sim continuar falando em bolsonarismo e deve continuar falando em extrema-direita para deixar bem claro que tipo de posicionamento político é esse grupo representa”, afirma Mendonça.
Na análise do cientista político e pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia da UFC (Lepem-UFC), Cleyton Monte, vários nomes no Senado podem buscar a liderança desse movimento, como o próprio Rogério Marinho. “O Senado ainda grande a grande fortaleza bolsonarista pela sua representação. Então esses nomes ainda vão buscar algo, ainda tem uma relação direta com o bolsonarismo”, pontua.
Na mesma linha expõe o docente em Ciência Política Filomeno Moraes. “Com a possibilidade de decretação da inelegibilidade de Jair Bolsonaro e, no limite, a sua condenação criminal, talvez lideranças mais racionais, como o senador general Mourão, ou mais moderadas, como o senador Rogério Marinho, poderão ocupar o espaço de organização de uma direita com alinhamento às regras do jogo democrático. Evidentemente, há de se relativizar o número de senadores que a imprensa e o discurso político denominaram bolsonaristas”, afirma.
Para o especialista, a eleição no Senado teve “nuanças que são próprias do conflito por posições de mando no próprio Senado, muito mais do que simples lealdade a Bolsonaro”. “A perspectiva é de que os 32 senadores contrários a Rodrigo Pacheco e ao Governo Federal desçam para um patamar inferior, à medida que desenvolva o processo político-legislativo”, avalia ainda.
No mesmo sentido afirma Cleyton Monte, segundo ele, o que foi visto na votação no Congresso “não foi só a vitória da habilidade política do presidente Rodrigo Pacheco, foi a vitória da mobilização, da articulação política do governo Lula”.
Ainda que saia da política nessas hipóteses, Bolsonaro fincou raízes. Para o especialista Clayton Mendonça, “essa extrema-direita parece veio mesmo pra ficar no Brasil pelo menos nesse futuro imediato, nesse futuro previsível”.
“Sempre existiu direita no Congresso, mas era uma direita envergonhada, que dizia que era de centro. Inclusive, daí vem esse nome centrão. O centrão não é nada de centro, ele sempre foi um grupo parlamentar de direita. Uma direita conservadora, sobretudo em questões morais, mas que está disposta a negociar em troca de cargos, de benefícios mesmo com governos que não sejam propriamente direita. Então, isso é mais uma mostra dessa dessa dinâmica que a gente sempre teve, essa direita que não costumava dizer o seu nome. E isso é uma coisa que de fato mudou significativamente desde a eleição do Bolsonaro em 2018, uma direita que já não tem mais vergonha de dizer o seu nome”, explica ainda.
