Cearense, pintor, gravador e desenhista, Rian Fontenele também é graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Apesar da formação, segue atualmente – e sempre seguiu – a sua vocação, de artista. Agora, está como diretor da Pinacoteca do Estado do Ceará, equipamento que tem como missão a preservação, a formação e a difusão da arte, com destaque para a produção cultural cearense.
Em 2005, Rian venceu o prêmio de melhor desenho da XIII Unifor Plástica pela exposição Individual Hiatos, realizada em Fortaleza. Quatro anos depois, em 2009, recebeu o prêmio de melhor pintura pela Bienal da Unifor. Em 2014 participou do Circuito Caixa Cultural, com a exposição “A Restauração de uma Ausência”, a qual ainda segue atualmente.
Suas obras estão representadas em coleções públicas e privadas, como aquelas que compõem os acervos do Museu da Universidade Federal do Ceará (Mauc), IBEU CE, Centro Cultural do Banco do Nordeste (CBNB), Museu da Arte Contemporânea (MAC) – Dragão do Mar, Fundação Ayrton Queiroz e Instituto Hilda Hilst. Além disso, Rian também é dono de um ateliê no Centro da Cidade, que está fechado por conta do trabalho do artista como gestor cultural na Pinacoteca.
OPINIÃO CE: O que te fez se interessar e se envolver com a arte?
RIAN FONTENELE: Sou filho de um escultor, chamado Ivan Cunha, que teve uma importância muito grande nas artes plásticas nos anos 60, 70 e 80. Eu cresci dentro de um ateliê de esculturas de pedra e de madeira. Era um ateliê coletivo, com muita gente. E eu não sei dizer exatamente se é a partir disso que nasce esse desejo. Mas ali com oito, dez anos de idade, eu já dizia que ia ser pintor quando crescesse. E eu sempre me vocacionei para isso. Mesmo quando eu fiz arquitetura, na primeira semana eu me lembro de dizer que arquitetura seria minha vocação intelectual e não profissional. Na época da faculdade eu já expunha, então comecei muito cedo, já estou com quase 30 anos de carreira. Mas para mim, sempre foi minha forma real de estar no mundo. É como artista que eu me coloco no mundo.
OPINIÃO CE: De que forma seu envolvimento com a arte levou ao surgimento de um interesse em valorizar o patrimônio cultural cearense?
RIAN FONTENELE: Existe um exercício quase jocoso de falarmos que artista nacional é quem está no eixo Rio-São Paulo e que todo o resto são artistas locais. Então, o que eu, como artista cearense, assim como todos nós, queremos afirmar como nós somos. E eu entro nesse projeto com o gesto, digamos que político, de um desejo de nos colocar e nos proclamarmos artisticamente de forma nacional. Estar como gestor, sendo um artista, me trouxe outros pontos de vista, uma construção mais próxima do que precisamos. E eu trago esse conceito de museu-ateliê, entendendo o ateliê como um espaço de experimentação. Esse local, para um artista, é traduzido com a referência de como ele enxerga as coisas. Um ateliê não é simplesmente um local onde se faz as coisas, isso é a coisa mais básica. Eu costumo dizer que uma mesa pode ser um. Então, ele é um lugar de referência, de memória, de exercício, mas principalmente é um lugar de experimentação, de mergulho profundo no que se propõe, tanto nas suas questões quanto nas questões sociais do seu tempo. E esses são conceitos que estão presentes aqui, na Pinacoteca, e refletem o que eu penso e que me aproximam dessa maneira de expressão.
OPINIÃO CE: O que é, de fato, um equipamento como a Pinacoteca? Qual a função dela dentro de um ambiente como a Cidade?
RIAN FONTENELE: A Pinacoteca é um museu público, gratuito, pertencente à rede de equipamentos culturais do Estado e que se soma, em rede, com o mesmo pensamento que o restante desses equipamentos. É um equipamento para as pessoas, não para os artistas. Nossa ideia é que aqui seja, de fato, um local de experimentação, de reflexão e de memória para a arte cearense, a arte contemporânea e a arte internacional. Ou seja, aqui é um lugar para celebrar a nossa arte, que é universal. Esse equipamento também traz a ideia de pertencimento, a ideia de que nós nascemos em plural. Eu tenho falado essa frase e tenho visto a beleza disso. A construção de um local assim é uma cooperação, é uma construção coletiva. Para a construção de um objeto artístico, é natural que exista um exercício egóico, existencial do seu trabalho. Você percebe a forma como afeta o mundo e como o mundo te afeta. Mas, para a criação, o fomento, de uma classe artística, de uma cidade que se propõe a ser um farol, apesar de achar essa fala um pouco prepotente, é necessário estarmos juntos.
OPINIÃO CE: Qual sinalização a atual gestão estadual dá ao investir em um equipamento como esse?
RIAN FONTENELE: Esse é um projeto do Governo do Estado que vem sendo acalentado há muito tempo, e, desde o primeiro gesto, teve a intenção de entender a rede de forma coletiva. Toda essa política de gestão da Cultura estadual, nos últimos anos, vem sendo referência para o país. Por exemplo, saiu uma matéria no site Arte Brasileiros, do jornalista Fabio Cypriano, a qual traz, em números, que o Ceará, equivalentemente, investiu mais na parte cultural do que São Paulo no último ano. Claro que existe, ainda, o exercício que devemos fazer sempre de fortalecer essa pasta. A cultura ainda é vista, de alguma forma, sempre como algo não essencial. E existe, no governo estadual, uma construção, que vem junto com o governo Camilo, e agora com o governo Izolda, da importância da cultura, não somente social, como também econômica.
OPINIÃO CE: Como está sendo o trabalho inicial na Pinacoteca e qual a expectativa para o ano que vem?
RIAN FONTENELE: Nós já começamos a Pinacoteca na sua potência máxima, praticamente. Visto que, temos, junto com as outras três exposições que estão aqui agora, nós abrimos com mais de duas mil obras, com um espectro muito grande da arte cearense. Nós temos uma mostra real disso, só de artistas cearenses nós temos mais de 170. Agora, a partir desse momento, é que nós começamos as visitações. Estamos com uma média de 1.500 a 2.000 pessoas por fim de semana nas visitações. Isso já demonstra uma responsabilidade no que nos propomos. Então, atualmente estamos num momento de implementação. Assim que possível, vamos ampliar para ficar aberto mais dias, inclusive. Nenhum equipamento cultural nasce pronto, e se nasce, está errado. Na verdade, ele nasce com toda uma possibilidade de acolhimento de quem vai fazer uso e, a partir disso, o local vai encontrando a sua vocação. Estamos então, no meio de um planejamento museológico participativo, no qual fazemos escutas internas, escutas com os equipamentos e com a sociedade civil e a classe artística.
OPINIÃO CE: Você acha que a próxima gestão estadual dará continuidade à essa política de valorização da cultura?
RIAN FONTENELE: Tenho certeza absoluta de que sim. A próxima gestão não só é um governo de continuidade, e isso nos dá muito fôlego e alegria de saber que tudo isso que montamos não somente terá continuidade como também crescimento. É agora que começamos os trabalhos, e temos a convicção de que teremos todo o apoio para seguirmos com o que desejamos.
OPINIÃO CE: Qual seu papel, como Rian, dentro da extensão e da valorização da cultura no Ceará?
RIAN FONTENELE: É um exercício contrário ao meu exercício como artista. Como artista, eu faço uma prática de afirmação da minha poética, uma prática de me compreender no meu estado mundo e como eu posso ativá-lo. O exercício que eu venho fazendo nesses três anos e meio, como gestor, é o inverso. Agora eu estou no sentido de abandonar, de certa forma, a prática autoral e indo de encontro ao exercício coletivo. Desde a concepção desse projeto, eu trabalho entendendo que somos um projeto plural e público. É um trabalho no qual eu me sinto muito confortável, que me traz as referências, seja no ateliê coletivo de meu pai, seja das experiências com a arquitetura. É um exercício político e social que eu faço de que juntos somos mais fortes.
