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Da carroça à dignidade: catadores de Fortaleza têm rotina transformada com auxílio da tecnologia

Rafaela (esquerda) e Deysa (direita) são duas das beneficiadas com o projeto Re-ciclo. Foto: Beatriz Boblitz

PRISCILA BAIMA E RODRIGO RODRIGUES | Acordar mais cedo que todos da casa, escovar os dentes, fazer o café da manhã dos filhos e do marido, pentear os cabelos, colocar o uniforme laranja e fazer a viagem, de segunda a sexta, de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, ao movimentado Ecoponto do Centro da Capital cearense. EPIs a postos no corpo, sorriso no rosto e disposição para fazer de Fortaleza uma cidade mais limpa.

Este é o retrato da rotina de Francisca Raquel, de 34 anos, profissional que trabalha com resíduos sólidos e reciclagem, mais precisamente, no projeto Re-ciclo. A catadora, como gosta de ser chamada, divide parte da rotina ao lado das colegas de trabalho Deysa Oliveira (26), Rafaela Nascimento (30) e Dona Sônia (52) – que trabalha há mais de 20 anos selecionando resíduos de forma adequada para a reciclagem.

Todas elas fazem parte de uma equipe que ajuda a transformar a cidade cearense em um ambiente mais sustentável, inteligente e com menor emissão de gás carbônico por meio do projeto Re-ciclo.

A iniciativa consiste em uma parceria da Prefeitura de Fortaleza com a Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) e é fruto de uma premiação de R$ 1 milhão recebida pela cidade no Desafio Global de Mobilidade Urbana 2019. Na fase piloto, o projeto estabeleceu como meta a entrega de 50 triciclos elétricos para catadores de resíduos com o objetivo de melhorar as condições de trabalho e suas rendas.

“Minha rotina é longa. Venho logo cedo da Caucaia (Jurema) para cá. Pela manhã, nós pegamos os triciclos e vamos fazer a nossa rota, que está pronta todos os dias para seguirmos nosso trabalho. Já tem um cronograma e nós vamos aos locais exatos todos os dias. Existe um organograma. Todo dia é um local diferente”, revela Francisca Raquel. Geralmente, a catadora coleta no Centro inteiro: papelão de lojas, farmácias, escolas e shoppings. “Em média, eu pego 150 kg só com o triciclo”, conta.

O projeto, explica a catadora, auxilia na manutenção da casa e composição da renda familiar, afetada durante a pandemia de covid-19. “Veio para transformar a minha vida porque antes era só meu marido para cuidar da nossa casa e ele não tem carteira assinada. Nós passamos por muita necessidade, mas, agora, com o meu salário e com o dele, já dá para a gente viver mais confortável, principalmente para alimentar e educar as nossas filhas”, narra, com lágrimas nos olhos e atenta aos caminhões de lixo no centro de reciclagem, na rua Alberto Nepomuceno.

Fonte: Prefeitura de Fortaleza

Sustentabilidade

Victor Macêdo, vice-presidente da Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação de Fortaleza (Citinova), confirmou à reportagem que existe um “braço muito forte de sustentabilidade ambiental” no momento em que o Re-ciclo impulsiona os índices de coleta. “Os catadores com os triciclos conseguem ter uma maior produtividade e uma maior renda. Isso já traz um pouco também do pilar social e econômico do projeto”. O Re-ciclo está, atualmente, em seu terceiro mês de operação.

No começo, a iniciativa passou pelas fases de destinação dos triciclos às associações e a parte de capacitação. “O projeto começou para valer agora em setembro [de 2022]. Nesse período, já foram 53 toneladas de resíduos recicláveis coletados e destinados a associações, e mais de R$ 75 mil gerados a essas associações. E é porque ainda está funcionando em caráter piloto, somente em cinco bairros, com cerca de 300 usuários frequentes do programa”, explica Victor.

Lançado em setembro, a projeção é de que no período de um ano sejam coletadas 350 toneladas de resíduos e ocorra uma geração de renda estimada em R$ 370 mil para os catadores associados. Segundo a Prefeitura, a renda fixa seria de R$ 1.100 por mês para cada catador, além dos valores recebidos pela venda dos resíduos.

Bairros onde o Re-ciclo já funciona:

  • Centro;
  • Praia de Iracema;
  • Meireles;
  • Varjota; e
  • Mucuripe.

Para a coleta do material, são utilizados dois Ecopontos como base, mas a ideia, segundo Victor Macêdo, é expandir para atingir todos os bairros da cidade.

Passo a passo para solicitar a coleta pelo Re-ciclo:

  1. Acesse o site do Re-ciclo (clique aqui);
  2. Vá no menu “Quero reciclar”;
  3. Aceite os termos do site;
  4. Na sequência, informe nome, telefone e e-mail;
  5. Diga qual o bairro em que o lixo será recolhido (com endereço e ponto de referência);
  6. Escolha com que frequência deseja a coleta e agende.
  7. Após receber os pedidos, o projeto elabora as rotas de coleta. Os catadores, então, buscam os resíduos porta a porta, nos triciclos elétricos. O material coletado é encaminhado ao ecoponto vinculado e direcionado às associações de catadores.

Costume de casa vai à praça

Em Caucaia, Francisca também se tornou exemplo para os moradores de sua rua. Lá, é feita a coleta de porta a porta toda semana. “Eu faço parte de uma associação de catadores, mas no nosso bairro [Jurema], nós ainda não temos um galpão, uma estrutura, temos um espaço onde a gente armazena nosso material coletado. Fazemos ações nos bairros, com caminhadas, entregando panfleto. As pessoas têm o contato da gente e é só ligar. Em seguida, vamos na residência e fazemos a coleta seletiva”.

Moradora do Montese, em Fortaleza, Rafaela Nascimento é outra mãe de família que enfrenta ônibus e distância para a missão da reciclagem. Além da rotina puxada, com dois filhos pequenos que tem que deixar na creche antes do trabalho, Nascimento ainda ‘dá uma de professora’ quando o assunto é ensinar a separar de forma correta os resíduos. Seus alunos? Os moradores dos bairros Praia de Iracema, Beira-Mar e Monsenhor Tabosa, em Fortaleza.

“Papel, vidro, latinha, garrafa pet. Separar cada um desses resíduos em locais diferentes é um desafio porque nem todos sabem que precisam fazer essa seleção. A ideia é fazer, primeiro, as pessoas entenderem que a gente não trabalha com lixo e sim com resíduos. Isso já muda a mentalidade de muitos que até têm boa vontade, mas não foram educados para tal”, pondera a catadora de 30 anos.

O sustento de Rafaela e de sua família vem todo da reciclagem. Antes, ela trabalhava em um galpão, mas ganhava pouco. “Conseguia, em média, de 200 a 300 reais. Não dava para nada, nem conseguia contar para comprar coisas grandes, só besteiras menores. Para quem tem dois filhos, 300 reais é muito pouco, mas depois que o projeto entrou, melhorou muito. Espero que o projeto cresça e permaneça por mais tempo, já que, por enquanto, serão apenas 11 meses. Se renovar o contrato, vai ser maravilhoso”, fala Rafaela, esperançosa.

Dona Sônia trabalha há mais de 20 anos com materiais recicláveis. Foto: Beatriz Boblitz

Para que todo o plástico, vidro, garrafas pet e papelão coletados por Francisca e Raquel tenham um destino verdadeiramente sustentável, a Dona Sônia, que completou duas décadas selecionando o que é lixo e o que é resíduo reciclável, precisa necessariamente “pegar o bastão”. Com mãos já engrossadas pela vida, a catadora, de olhar certeiro, separa rapidamente os materiais que vão para os galpões.

Inclusão social deve ser pilar

O professor do departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e membro do Observatório das Metrópoles, Alexandre Queiroz, vê a iniciativa com bons olhos, mas acredita que é preciso romper algumas barreiras para que a sociedade consiga enxergar o trabalho desses profissionais de forma mais responsável.

“Quando você fala de inserção dos catadores de reciclados, hoje, muitas vezes se exerce essa função não porque ela seja importante como ela é, mas por uma total falta de outras oportunidades de trabalho. Esse projeto, lógico, ameniza situações terríveis. Só que isso, ao meu ver, não causa mudanças estruturais. É preciso criar muito mais para que a sociedade perceba que essas pessoas podem contribuir muito mais, mas também ganhar muito mais. Não há lógica sustentável se você tem miséria e uma exploração da força de trabalho”, ressalta.

Professor Alexandre Queiroz sobre o projeto:

 

Ainda na avaliação do docente, a lógica da catação dos resíduos deveria estar mais atrelada aos bairros, já que o catador, geralmente, é conhecido no seu bairro, mas atua em outros locais, considerados “mais nobres”, onde o profissional tem mais chances de conseguir bens a serem transformados em dinheiro, sobretudo metais e papel. “Deveriam ser montados projetos pilotos nos bairros, estabelecendo redes, vinculando os Ecopontos, entender bem a espacialidade dos bairros, subdividir, estabelecer estudos pilotos para compreender isso”, defende o professor.

O representante da Citinova, Victor Macêdo, destaca, neste ponto, que a Prefeitura tem tentado encontrar soluções para democratizar o acesso aos bens e serviços na cidade de Fortaleza por meio da inovação. “Os problemas urbanos estão cada vez mais complexos e a forma tradicional de lidar com esses problemas está obsoleta. Não se pode mais tratar um problema sobre uma única lente. Hoje, os programas são cada vez mais intersetoriais e as soluções também têm que ser dessa forma. Trazer inovação, novas metodologias, tecnologias é o que Fortaleza vem fazendo para enfrentar esses problemas tão complexos”, afirmou.

Ele cita, por exemplo, a criação do Laboratório de Inovação de Fortaleza para prototipar e implementar soluções inovadoras, além de programas como o Juventude Digital, que propõe a inclusão digital para jovens de escolas públicas e que precisam ser inseridos no mercado de trabalho. As iniciativas têm como foco, segundo o vice-presidente da Citinova, potencializar a Capital cearense como uma Cidade Inteligente.

Cidades Inteligentes e Meio Ambiente

O conceito de Cidades Inteligentes está intimamente relacionado à preservação do meio ambiente e com o surgimento de modos de produção sustentáveis. Um relatório publicado em 2018 pela consultoria empresarial McKinsey, por exemplo, mostra que a aplicação de tecnologia nas cidades pode reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa entre 10% e 15%, além de diminuir o consumo de água de 20% a 30% e fazer com que as pessoas gerem menos resíduos.

Alexandre Queiroz, corrobora com a percepção. “Essa cidade dita inteligente, dos sensores, essa cidade das informações, essa cidade que você teria o conhecimento instantâneo de tudo que se passa, ela seria mais sustentável à medida que você conseguisse lidar melhor com aquilo que faz a cidade funcionar, que são os elementos básicos, inclusive os elementos naturais como água, energia, tratamento de esgoto”, explica.

De acordo com o pesquisador, essas possibilidades poderiam, ainda, potencializar as infraestruturas construídas nas cidades para as mais diferentes finalidades. “Imagine uma rede de captação de água, de esgoto, com sensores que permitissem entender o grau de contaminação ou o grau de fluxo e, com isso, se estabelecesse o sistema de tratamento com novas medidas para que isso se adeque a característica dos dejetos”, aponta, destacando que é necessário, para além da coleta dos dados, correlacioná-los.

“Esse dado, isolado, não serve para nada. Agora, se ele for utilizado em outros sistemas que contornem a situação e que equilibre, você teria uma resposta imediata a condições que já se conhecem, seja de escassez, de um recurso ou seja de abundância, sistemas para evitar desastres naturais”, aponta Queiroz

Alexandre pondera, também, que é preciso, para além de gerar e correlacionar os dados, fazer com que a população os acessem de forma rápida e simples. “É um pouco do que já se tem hoje com o aplicativo de ônibus, que você tem os ônibus monitorados e o cidadão sabe mais ou menos com precisão que horas o ônibus vai passar no ponto. Essa é uma lógica que se pode aplicar aos recursos naturais e estabelecer simultaneamente uma decisão para melhor otimizar o uso desse recurso natural”.

O que, afinal, são as Cidades Inteligentes?

Victor Macêdo explica que o conceito é amplo e foi sendo aperfeiçoado ao longo do tempo. “Inicialmente, era muito relacionado à tecnologia, cidades que possuíam sensores, equipamentos de conectividade, geração de dados. Cidades que possuíam todo esse aparato eram tidas como Cidades Inteligentes. Mas, hoje, esse conceito está muito mais amplo. Ele diz muito mais aos resultados dessas tecnologias do que as tecnologias propriamente ditas”.

Na sua perspectiva, as Cidades Inteligentes são aquelas capazes de entregar serviços de qualidade ao cidadão utilizando recursos existentes e que sejam úteis. “Claro que isso está muito ligado com a sustentabilidade, não só a ambiental, mas também a econômica e social. Sustentabilidade nada mais do que todo esse conjunto de estratégias, de ideias e de políticas públicas e atitudes que sejam ecologicamente corretas, economicamente viáveis e socialmente justas, de forma a garantir a sobrevivência dos recursos que nós temos”.

Alexandre Queiroz acrescenta que o conceito conversa com a proposta geográfica que Milton Santos já trabalhava nos anos de 1990, quando falava do ‘meio técnico científico informacional’. “A ideia está vinculada a essa questão, primeiro, de simultaneidade, a partir de sensores, sejam eles câmeras ou outros tipos, transformando todos os fluxos e fatos na cidade em dados que podem ser reunidos, processados e gerados modelos que podem informar a real situação da cidade em vários aspectos e dimensões”, conclui, destacando a necessidade de haver uma maior descentralização nas cidades para uma maior democratização desses meios.

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