Deputado federal e presidente do União Brasil no Ceará, Capitão Wagner vai ficar sem ocupar cargo eletivo a partir do final de janeiro de 2023, quando se encerra seu mandato na Câmara Federal. O líder do UB no Estado afirma que pretende aproveitar o tempo para ajudar seus correligionários a costurar arranjos políticos no Parlamento. Ao OPINIÃO CE, em entrevista na última quinta-feira, 1º, Capitão Wagner contou que esteve recentemente em reunião com os presidentes do Legislativo Federal, Arthur Lira, e Estadual, Evandro Leitão (PDT), para tratar das cadeiras que a bancada eleita pelo seu partido deve ocupar nas comissões da cada Casa.
Na entrevista, Capitão Wagner, que perdeu o último pleito ao Governo do Ceará, evitou falar sobre as eleições municipais de 2024, mas defendeu que se tornou uma espécie de “coringa” e que, com a sua liderança, pode trabalhar para eleger prefeitos nas cidades cearenses, ampliando a atuação da própria sigla e de aliados.
Sobre a sua posição no governo Elmano de Freitas (PT), o parlamentar disse que pretende liderar uma oposição responsável e propositiva e que planeja os espaços de atuação que seu bloco assume na Assembleia Legislativa, representado pelos deputados eleitos Sargento Reginauro, Felipe Mota, Firmo Camurça e Dr. Oscar Rodrigues. Confira a íntegra.
OPINIÃO CE: Nas últimas eleições, apesar de não ter saído vitorioso, o senhor venceu em Fortaleza. Pretende concorrer novamente à Prefeitura? Qual será o seu destino político?
CAPITÃO WAGNER: É, de fato, a primeira vez que eu ganhei eleição em Fortaleza para um cargo majoritário foi essa, né? Nas duas que eu disputei para prefeito, fiquei em segundo lugar, nessa a gente ficou em primeiro, foi uma surpresa boa. Isso acaba deixando aí na militância a vontade de executar a eleição, mas eu estou vindo já de três eleições majoritárias, então eu tenho dito pra todo mundo que não é minha prioridade, mas logicamente que chegando a época a gente vai avaliar. Hoje a gente tem nomes na oposição que podem se viabilizar, o nosso partido por exemplo tem Carlos Matos, tem Heitor Ferrer, a gente tem o próprio Eduardo Girão, que é senador, está no meio do mandato e também não perderia nada se concorresse, tem a Kamila Cardoso, tem o meu nome, tem o do André Fernandes, que é do PL, um partido aliado. Então são vários nomes que a gente pode avaliar até 2024 e ver se é interessante colocar o nome desses pra disputar aqui em Fortaleza e eu ficar mais nos bastidores. Como eu virei uma liderança estadual, muito embora não tenha vencido essa eleição, mas fui votado em todos os municípios, bem votado, acaba sendo um coringa que pode estar no processo eleitoral municipal dando apoio a um município e a outro, então muito cedo pra definir o meu futuro eleitoral, meu futuro político. Mas com certeza a partir de fevereiro quando eu deixar o mandato (de deputado federal), eu vou estar em atividade, já tem alguns convites na iniciativa privada e também do setor público, eu estou neste mês de dezembro avaliando o que que seria mais interessante, talvez até dê pra acumular as duas atividades, se der farei isso, senão vou assumir alguma atividade, vou estudar, me capacitar mais, talvez até fazer algum curso fora, mas com certeza muito trabalho em 2023.
OPINIÃO CE: Qual vai ser a posição do senhor em relação ao governo Elmano. Como pretende liderar esse bloco de oposição?
CAPITÃO WAGNER: Essa nossa iniciativa de estar com os deputados estaduais conversando com o presidente da Assembleia foi após eu estar com os deputados federais conversando com o presidente da Câmara de Deputados. A gente acredita que o Arthur Lira está numa situação muito semelhante a do Evandro Leitão, devem os dois concorrer à reeleição [das Presidências da Câmara Federal e da Assembleia do Ceará, respectivamente] com facilidade, para vencer a eleição, e a nível federal a gente vai estar com Arthur Lira. O União Brasil deve ser contemplado na Mesa Diretora, deve ter espaços lá na Câmara nas comissões, que são muito importantes, a gente tem quatro deputados federais (do Ceará), e cada um com interesse diferente, de compor comissões diferentes, então a gente já foi, se antecipou ao Arthur Lira, antes inclusive do União Brasil anunciar apoio, a gente já tinha tido uma conversa inicial para poder ocupar esses espaços lá na Câmara. Fiz a mesma coisa aqui a nível de Assembleia, com o deputado Evandro Leitão, (o União Brasil) é um partido grande, tem dez por cento da bancada da Assembleia, são quatro deputados, deve ocupar algum cargo na Mesa Diretora… Existem comissões importantes e pra minha sorte também os quatro deputados têm interesses diferentes, tem um deputado que é mais ligado à educação, no caso o Oscar Rodrigues, tem outro ligado à segurança, que é o Sargento Reginauro, temos o Felipe Mota que é mais ligado à agricultura, o Firmo Camurça que é mais ligado a essa questão municipal. Então, cada um tem o interesse de participar de uma comissão diferente e fica mais fácil pra gente articular essa composição e poder ter o partido participando de forma ativa das atividades da Assembleia.
OPINIÃO CE: Qual será a posição do senhor em uma eventual aproximação do UB com o governo Lula?
CAPITÃO WAGNER: Eu acho difícil que isso aconteça, não por falta de vontade da direção nacional, que a direção tem conversado com o Lula, inclusive durante o processo teve várias conversas o Lula, mas por dificuldade dentro da bancada. Se a gente pegar os 60 deputados do União Brasil, pelo menos 40, 45 foram eleitos da mesma forma que nós fomos aqui no Ceará, na oposição ao PT. Então a grande maioria dos deputados federais que foram eleitos pela União Brasil foram numa posição contrária do PT. Uma guinada desses parlamentares ir pra base do PT eu acho pouco provável que aconteça. E se tiver alguma conversa a nível de direção nacional, acredito que a direção vai fazer como fez na campanha, deixar o pessoal livre. Eu sempre tive muita liberdade aqui no Ceará pra conduzir o partido, estive conversando com a direção nacional recentemente, eles dizem que a gente vai continuar, não só conduzindo o partido, mas com a mesma independência, com a mesma liberdade, até porque devem ser respeitadas as questões regionais.
OPINIÃO CE: Pode-se esperar do senhor uma oposição ferrenha ou pretende fazer oposição com mais cautela?
CAPITÃO WAGNER: A ideia da gente é continuar sendo oposição, porque foi assim que o eleitorado decidiu. Eu tenho comigo desde 2010, quando eu concorri a primeira vez, que a gente tem que respeitar a vontade do eleitorado, se o eleitorado me colocou pra governar eu vou ser governo, se me colocou na oposição. Eu vou ser oposição, logicamente, de forma propositiva, responsável, mas sempre apontando as falhas e as soluções. Se vocês pegarem a minha evolução desde a primeira eleição até eleição desse ano, eu amadureci muito. Eu entendo que o próprio eleitor prefere apostar em políticos que não só apontam a falha, mas principalmente que apontam também as soluções. Então a gente vai fazer da mesma forma, vai continuar apontando os erros do governo, até para que o governo tome conhecimento disso; eu entendo que, se eu fosse governador, não ia ter como saber que um hospital lá em Juazeiro estava faltando um médico no plantão. Então, a gente tem que entender que o governador não é responsável por tudo, mas o papel da oposição é apontar falhas e apresentar soluções, e é isso que a gente pretende fazer nos próximos quatro anos aqui no estado do Ceará. (De todo modo), pra mim é muito difícil dar uma guinada e apoiar um governo quando eu fui o adversário dele na última eleição. Seria fazer mais ou menos o que o Eunício, e o eleitor não entendeu quando ele se juntou com o Camilo logo após a eleição de 2014. Foi uma coisa muito acirrada em 2014; 2018, estavam os dois agarrados. Então é muito ruim pro eleitor entender, é muito difícil o eleitor entender dois políticos que são de lados opostos de repente estarem juntos.
OPINIÃO CE: Quais são as três principais problemáticas que o Governo do Estado tem que combater já de imediato, na visão do senhor?
CAPITÃO WAGNER: O que a gente falava muito durante a campanha: saúde, segurança e emprego são as três demandas principais. O cearense precisa de oportunidades, o estado do Ceará tem muitas oportunidades através das energias limpas, energia solar, energia eólica, hidrogênio verde, que é uma realidade que ainda está aí pra ser explorada. O Estado tem 600 quilômetros de praia também pra apostar não só no turismo mas também na pesca, o estado hoje tem tecnologia capaz de aumentar a produção agrícola. Então, o que falta muitas vezes é o Governo do Estado ser parceiro do setor privado. Eu me aproximei muito da Federação da Agricultura aqui do estado do Ceará, e o pessoal tem dito muito que quer um Estado que não atrapalhe a atividade produtiva. E isso não é só na agricultura, é também na atividade industrial, na atividade comercial, na área de serviço. Então a gente espera que esse governo que se inicia tenha a capacidade que os outros não tiveram de desonerar os impostos. Infelizmente o estado do Ceará, ano após ano, bate recorde de arrecadação de imposto, e isso não é traduzido em melhoria dos serviços, basta ver que a segurança continua sendo um problema grave, a saúde continua sendo um problema muito grave; a área que o Ceará se destaca é a área da educação, durante algum tempo, mas as demais áreas têm sérias dificuldades.
OPINIÃO CE: Qual a avaliação que o senhor faz do pleito de 2022, a níveis estadual e nacional. O senhor se sente representado pela bancada federal eleita no Senado e na Câmara?
CAPITÃO WAGNER: O resultado federal foi muito o que a gente esperava, uma eleição muito acirrada, disputadíssima, né? (Para a presidência foi) 49 a 51 por cento, não chegou nem a dois por cento de diferença, então foi uma eleição acirrada. O que a gente espera é que o Estado e o Brasil se pacifiquem a partir de então, não dá pra viver quatro anos com essa guerra com essa polarização absurda, até eleição de 2026.
OPINIÃO CE: O senhor acredita que o caminho a partir de agora é de pacificação?
CAPITÃO WAGNER: Era para ser, né? É o que eu desejo. Mas quando a gente vê uma transição que está sendo formatada pelo governo que foi eleito, o Governo Federal, com um um viés extremamente ideológico à esquerda, isso mostra que a polarização vai continuar pelos mesmos próximos meses. Eu entendia que pela forma como se deu o resultado, havia necessidade do PT e do Lula entender que precisaria formar uma frente ampla para governar o país. A gente não está vendo isso pelo menos agora na transição, não sei como é que vai ser no próximo ano. Mas, de toda forma, eu já esperava esse resultado a nível federal e eu me sinto, sim, representado pela bancada federal. A gente conseguiu, graças a Deus, fazer quatro deputados aqui no União, foram cinco no PL também, então teoricamente a oposição tem uma representação muito forte, o senador Eduardo Girão está lá também com muita dificuldade, mas sempre muito atuante no Senado, então a nível federal é mais ou menos isso.
OPINIÃO CE: E no âmbito estadual?
CAPITÃO WAGNER: A nível de Ceará, ninguém esperava esse resultado já no primeiro turno, mas ele é plenamente compreensível, na própria apuração quando eu acompanhava os outros estados que eu via a Bahia, onde o ACM Neto apresentava grandes chances de vencer a eleição no primeiro turno e ele quase perdeu no primeiro turno, né? Então a gente viu que a onda vermelha tomou de conta do Nordeste. A única exceção foi Pernambuco por conta de uma tragédia, a governadora que foi eleita lá (Raquel Lyra) não ia sequer pro segundo turno a pesquisa apontava isso, perdeu o marido na véspera do primeiro turno, muito triste isso, acaba comovendo as pessoas que levaram ela pro segundo turno, e ela mostrou que é qualificada nos debate, assisti algumas entrevistas, é uma pessoa extremamente preparada. O 13 no Nordeste ainda é muito forte, a gente reconhece isso. E para mudar isso a gente vai ter que aguardar aí algum tempo, algumas gerações. Eu tenho certeza disso.
*Com informações da repórter Maria Eduarda Pessoa (maria.eduarda@opiniaoce.com.br)
