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“Até o fim de 2022, teremos a primeira molécula de Hidrogênio Verde do Brasil”

Foto: José Sobrinho/Sistema FIEC

Nos últimos dias, o OPINIÃO CE publicou reportagem mostrando o saldo do Ceará após participação na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 27), realizada no Egito e que contou com a participação de cearenses. A governadora Izolda Cela (sem partido), convidada ao evento, liderou a comitiva. Na oportunidade, a chefe do Executivo estadual se reuniu com diretores do Banco Mundial, que reforçaram o compromisso e a disposição para financiar projetos de Hidrogênio Verde no Ceará. O apoio poderá ser usado em infraestrutura, assistência técnica e desenvolvimento sustentável.

Em entrevista ao OPINIÃO CE, Joaquim Rolim, que participou presencialmente da COP e coordena o setor de Energia da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), parceira no processo de implementação do novo plano energético do Estado, destaca que o Ceará deverá produzir, até o fim deste ano, a primeira molécula de Hidrogênio Verde do País. Segundo ele, esse é um passo inicial que coloca o Estado em destaque nacional e global no processo de transição energética. O projeto piloto desenvolvido no Complexo Portuário tem investimento de R$ 45 milhões.

Além disso, Rolim comenta sobre a emenda ao Memorando de Entendimento assinada pela governadora, durante o evento internacional, com a multinacional australiana Fortescue Future Industries. No documento, a empresa e o Governo reafirmam o compromisso de implementar uma usina no Complexo Portuário do Pecém. O projeto é considerado um dos mais adiantados no Estado, devendo gerar 2.500 empregos na fase de construção e 800 durante a operação da unidade, que terá investimento de 6 bilhões de dólares.

OPINIÃO CE: Qual o saldo da COP 27 para o Ceará?

JOAQUIM ROLIM: Estivemos na COP 27, na cidade de Sharm el-Sheikh, no Egito, que começou no dia 6 de novembro e terminou no último dia 18. A comitiva da Fiec foi composta pelo Jurandir Picanco, Jesse Van Griensven e eu, Joaquim Rolim. Nós três procuramos fazer uma interação muito importante com especialistas, com empresários, investidores e autoridades mostrando cada vez mais e reforçando a importância do Hidrogênio Verde. É uma nova fronteira energética que surge e da qual o Ceará saiu na frente. Saiu na frente inclusive com a participação direta da Fiec, através do nosso presidente, Ricardo Cavalcante, que visualizou essa oportunidade juntamente com o consultor de energia da Fiec, Jurandir Picanco, que levou essa ideia ao nosso presidente, ele se entusiasmou e é um entusiasta do tema.

OPINIÃO CE: Qual a situação do Ceará hoje em relação ao Hidrogênio Verde?

JOAQUIM ROLIM: Com a interação, a conjunção desse projeto com a Universidade Federal do Ceará (UFC), com o Complexo Industrial e Portuário do Pecém e com o Governo do Estado foi ganhando cada vez mais força e hoje o Ceará já tem 24 memorandos de entendimentos assinados, que representa um investimento de mais de 20 bilhões de dólares. No Egito, inclusive, tivemos a nossa governadora, Izolda Cela, no dia 9, anunciando [uma emenda] junto à empresa Fortescue Metals Group, uma multinacional australiana da área de mineração que tem investido muito no Hidrogênio Verde. Um avanço a mais no projeto da Fortescue no Ceará. É mais uma demonstração de que o Ceará sai na frente porque a viabilidade econômica dos projetos está se materializando e cada vez mais avançando. Até o fim deste ano, deveremos ter a primeira molécula de Hidrogênio Verde do Brasil, que vai sair lá no projeto da EDP [empresa que atua em todos os segmentos do setor elétrico brasileiro] no Complexo do Pecém. É um projeto piloto, mas um piloto de R$ 45 milhões, para você ver a dimensão do Hidrogênio Verde.

Foto: José Sobrinho / Sistema FIEC

OPINIÃO CE: Qual o impacto de acordo com a Fortescue Metals Group em termos de investimentos?

JOAQUIM ROLIM: Isso nos dá um grande otimismo com os projetos que cada vez mais avançam. Há um acréscimo na dimensão dos projetos. Esse projeto da Fortescue já elevou em mais de duas vezes [o nível de investimentos] em termos do patamar inicial para o que há hoje. A gente fica esperançoso. No ano passado, tivemos a COP 26, na Escócia, na qual já havia praticamente um alerta de que o clima requer urgência. Agora, no Egito, pudemos ver anúncios de grandes países, como os Estados Unidos, de que irão realmente aplicar [recursos], investir na transição energética.

OPINIÃO CE: Como ocorreu o debate da transição energética na COP?

JOAQUIM ROLIM: Tivemos muitos debates, muitas interações entre as autoridades, buscando que a transição energética, que a mudança climática que hoje é mais chamada de ‘crise climática’, saia, se materialize realmente, saia da parte das intenções e se materialize a partir, principalmente, da contribuição dos países ricos, buscando que os países em desenvolvimento possam ter fontes de financiamento, projetos para poder desenvolver nesse tema. Inclusive, uma boa parte do recurso energético para a transição está nos países em desenvolvimento. Nesse aspecto, o Brasil, o Nordeste brasileiro e o Ceará têm muito a contribuir. É isso que procuramos mostrar nas nossas participações nos painéis, nas palestras que temos feito, mostrando esse enorme manancial.

OPINIÃO CE: Que posição tem o Brasil nessa perspectiva?

JOAQUIM ROLIM: Se a gente for olhar o Plano Nacional de Energia de 2050, do Brasil, há um excedente de energias, apenas considerando as energias renováveis, de 17 vezes a energia que o Brasil precisará. Isso tudo pode ser transformado não somente no Hidrogênio Verde, que você vai exportar energia, mas também em produtos verdes. Então, o Brasil poderá exportar o aço verde, o cimento verde. Lembrando que hoje o Brasil já tem uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. No G-20, por exemplo, fizemos uma avaliação recente e a matriz energética elétrica no Brasil, que é 85% renovável, é a mais limpa do grupo dos vinte [países], do chamado G-20.

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