O esperado primeiro discurso de Lula, em reunião com o gabinete de transição, causou ataque no mercado. Esse ser, esse ente misterioso que é o mercado, vive tendo ataques, ficando nervoso, subindo e descendo o valor do dólar e da bolsa. Mas esse mesmo mercado parece que resistiu e segue resistindo ao atual momento tenebroso vivido pelo país. O que Lula disse para causar tanto espanto, tanto nervosismo na casta privilegiada de investidores? Disse o que se esperava dele e o óbvio.
Segue: “Por que toda hora as pessoas falam ‘é preciso cortar gasto, é preciso fazer superávit, é preciso fazer Teto de Gastos?’ Por que as mesmas pessoas que discutem com seriedade o Teto de Gastos não discutem a questão social deste país? Por que o povo pobre não está na planilha da discussão da macroeconomia? Por que a gente tem meta de inflação e não tem meta de crescimento? Por que não estabelecemos um novo paradigma de funcionamento deste país?”
Na sequência, continuou emocionado: “A única razão que tenho de voltar a exercer o cargo de presidente é tentar restabelecer a dignidade do nosso povo. E a prioridade zero, outra vez, o mesmo discurso que disse em dezembro de 2002, não tenho que mudar uma única palavra: se, quando eu terminar esse mandato, cada brasileiro tiver tomando café, almoçando e jantando outra vez, eu terei cumprido a missão da minha vida.”
A história do Teto de Gastos, implantada no governo impopular de Temer, não foi bem digerida por boa parte dos que têm bom senso, senso crítico e preocupação verdadeira com o social, com o povo. Os criadores do teto e os atuais mantenedores parecem não enxergar as necessidades dos pobres. Lula é um líder nato, um estadista com vasta experiência em gerir a coisa pública e histórico de trabalho prestado aos mais pobres. Eleito em parte pelos mais vulneráveis, fala agora para eles e enche esse povo sofrido, faminto e nos últimos anos desalentado de esperança.
O Brasil, em 2014, pleno governo Dilma, saiu do mapa da fome da ONU. Neste ano, voltou para a lista do referido mapa. Milhões de brasileiros não tem o que comer, não sabem como será o dia de amanhã, vivem sem trabalho, sem estudo, sem perspectiva. Outros muitos são explorados, submetem-se a quase tudo para a própria subsistência. A declaração de Lula vai na contramão dessa situação. Espera-se uma mudança, uma transformação. O que importa é a vida do povo. A vida é mais importante que o mercado e seus chiliques.
Texto de Felipe Feijão, professor e colunista do GRUPO OPINIÃO CE.
