O presidente Jair Bolsonaro (PL) divulgou um vídeo, na noite desta última quarta-feira, 2, em que apela aos extremistas que não aceitam o resultado das urnas para que desbloqueiem as rodovias do país. A mensagem aconteceu no quarto dia de atos. Na gravação, Bolsonaro diz entender que os apoiadores estejam chateados, mas disse que é preciso “ter a cabeça no lugar.” “Quero fazer um apelo. Desobstrua as rodovias. Isso aí não faz parte, no meu entender, dessas manifestações legítimas. Não vamos perder essa nossa legitimidade”, diz.
Bolsonaro pediu para que seus apoiadores busquem outras formas de se manifestarem e lembrou que o bloqueio de rodovias é ilegal “Prejuízo todo mundo está tendo. O apelo que eu faço a você: desobstrua as rodovias. Proteste de outra forma, em outros locais, que isso é muito bem-vindo, faz parte da nossa democracia”, afirmou.
Até o início da tarde de ontem, havia 150 pontos de bloqueio nas estradas federais, segundo balanço da Polícia Rodoviária Federal (PRF). O número caiu, na comparação com os 271 pontos da manhã da véspera, mas milhões de pessoas seguem prejudicadas. “O fechamento de rodovias pelo Brasil prejudica o direito de ir e vir das pessoas. Está lá na nossa Constituição. E nós sempre estivemos dentro dessas quatro linhas. Tem que respeitar o direito de outras pessoas que estão se movimentando, além de prejuízo à nossa economia”, declarou Bolsonaro.
DESABASTECIMENTO DE COMBUSTÍVEIS
Também ontem, a Federação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Biocombustíveis e Gás Natural (Brasilcom) recomendou o desbloqueio de rodovias no país, sob o risco de desabastecimento de combustíveis. “A Brasilcom recomenda ações coordenadas das autoridades responsáveis, para o urgente desbloqueio das estradas e, onde necessário, proteger e acompanhar o deslocamento do transporte de combustíveis, visando assegurar o abastecimento de postos revendedores, supermercados e de hospitais, principais prejudicados pelas interrupções de fornecimento”, disse a federação, em nota.
Segundo a federação, as distribuidoras têm repassado informações em tempo real sobre os bloqueios para as autoridades. De acordo com o último levantamento do dia da PRF, havia 16 estados com rodovias interditadas no início da noite de ontem.
Na comparação com o período da manhã, houve piora em Goiás, que passou de duas para três interdições; Amazonas e Espírito Santo, que tinham três pontos, agora têm quatro; Maranhão, que apresentava um ponto com fluxo parcialmente impedido, agora tem bloqueio total da via; Mato Grosso (31 pontos de interdição. Antes, eram 30); Rondônia (tinha 11 interdições e agora tem 12); e Rio Grande do Sul, que registra três pontos com bloqueio total da pista, além de uma interdição.
INVESTIGAÇÃO
O Ministério Público Federal (MPF) pediu nesta última quarta à Polícia Federal (PF) a abertura urgente de um inquérito sobre a conduta do diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques, nas eleições de 2022. O documento aponta indícios de prevaricação, violência política e omissão na desmobilização dos protestos que bloquearam estradas federais após a derrota de Bolsonaro.
A corporação vem repetindo que, desde que encontrou os primeiros bloqueios na estradas, “adotou todas as providências para o retorno da normalidade do fluxo.” O inquérito também deve investigar se as abordagens feitas no último domingo, 30, dentro do horário de votação, afetaram o “livre exercício do direito de voto.” Mesmo após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibir operações relacionadas ao transporte público de eleitores, a PRF fez ao menos 560 operações, com foco no Nordeste. Eleitores denunciaram abordagens irregulares e o PT encampou a narrativa de que a corporação foi usada politicamente para dificultar o voto na região, predominantemente lulista.
A versão da Polícia Rodoviária Federal é a de que as operações tinham o objetivo de combater o transporte irregular de eleitores, com base no Código de Trânsito. A investigação sobre o diretor-geral da PRF foi requisitada a pedido de membros da 2.ª e da 7.ª Câmaras da Procuradoria Geral da República (PGR), compostas por subprocuradores-gerais da República. Eles apontaram “má conduta” na gestão da corporação e possível desvio de finalidade visando “interferir no processo eleitoral”.
Silvinei Vasques pediu votos para Bolsonaro nas redes sociais na véspera do segundo turno. A publicação foi apagada após a repercussão na imprensa. A reportagem entrou em contato com a corporação e aguarda resposta. O espaço está aberto para manifestação.
Estadão Conteúdo
