Marcelo Teles Negrão, ou apenas Marcelo Negrão, é um ex-jogador de voleibol e atual técnico do Rede Cuca Vôlei (RCV), equipe de Fortaleza que disputa a Superliga Masculina. Nascido em São Paulo e criado em Recife, o atual treinador é um dos principais nomes da história do vôlei nacional, com uma carreira recheada de títulos coletivos e individuais.
Negrão começou a jogar vôlei com apenas 11 anos no Colégio Boa Viagem, quando já tinha quase 1,80m de altura. Aos 14, foi contratado pelo Esporte Clube Banespa, de São Paulo. Já aos 17 anos, o jovem conquistou a sua primeira convocação para a seleção brasileira. Em 1992, quando tinha apenas 19 anos, Negrão foi convocado para fazer parte do elenco da seleção masculina de vôlei das Olimpíadas de Barcelona.
Na ocasião, Negrão conquistou o primeiro ouro olímpico do país em esportes coletivos, inclusive sendo o responsável por marcar o ponto do título, na decisão contra a Holanda, onde o Brasil ganhou por 3 sets a 0. No ano seguinte, enquanto jogava no Gabeca, time italiano, Marcelo Negrão foi eleito melhor jogador do mundo e ainda conquistou o título da Liga Mundial de Vôlei pela seleção. Durante a sua carreira, alternou entre clubes do Brasil e da Itália.
No começo dos anos 2000, por conta de lesões no joelho, teve de se aposentar precocemente das quadras. Nos últimos quatro anos, Negrão vem se dedicando à função de treinador. No último dia 31 de agosto, foi anunciado como novo comandante do Rede Cuca, que iria estrear na Superliga de Vôlei, sendo o primeiro clube do Estado a disputar a competição. O treinador conversou com o OPINIÃO CE sobre a sua experiência como jogador, suas expectativas como treinador da equipe e sobre o cenário do esporte nacional.
OPINIÃO CE: O que o levou a aceitar o desafio de assumir o Rede Cuca?
MARCELO NEGRÃO: Foi uma proposta de levantar o voleibol aqui da Rede Cuca e do Nordeste. Eu comecei minha carreira em Recife. Apesar de não ser do Nordeste, tenho um carinho muito especial pela região. Quando veio essa proposta, achei que seria um desafio interessante para mim. Profissionalmente, também é um desafio muito bom. Eu sempre fui um cara que gosta de coisas difíceis, mesmo porque quando jogava era oposto, e oposto só pega situação difícil. Então, não ia fugir muito da minha característica.
OPINIÃO CE: Quais são as suas pretensões para a temporada 22/23 do Rede Cuca na Superliga?
MARCELO NEGRÃO: A nossa intenção primeiro é de se manter na Superliga, e aos poucos a gente ir buscando um passo a mais. Mas a principal intenção é se manter na Superliga, entre os 10.
OPINIÃO CE: Qual a sua avaliação inicial do seu time? Até onde você quer levar esse plantel que você tem hoje?
MARCELO NEGRÃO: É a primeira vez que o público tem um time para torcer aqui, primeira vez que a gente está jogando a Superliga. Não vou dizer que 100%, mas acho que 90% do elenco está jogando pela primeira vez uma Superliga. Então, para começo, primeiro jogo, já jogando contra o SADA/Cruzeiro, uma referência, apesar de ter perdido de 3 a 0, mas as parciais foram muito boas, mostrando que o time está no caminho certo. É manter esse ritmo de treino, que com certeza a gente vai chegar aonde a gente quer.
OPINIÃO CE: Como pretende passar sua experiência para esses atletas mais novos?
MARCELO NEGRÃO: Na verdade, eles vão viver dia a dia isso aí. Apesar de eu ter jogado muitos anos de voleibol, sempre em alto nível, e apesar de falar cada dia como o que vai acontecer [no jogo], eles vão sentir. Experiência a gente só ganha vivendo, e eles estão vivendo, só estão confirmando aquilo que venho falando para eles todo dia: o ginásio lotado, virando ídolos, o Brasil inteiro vendo eles, e, com o passar do tempo, com o passar dos jogos, acredito que eles vão ganhar essa maturidade.
OPINIÃO CE: O Rede Cuca é a única equipe do Nordeste jogando a Superliga, além de ser a primeira vez que um time cearense disputa a competição. Como uma pessoa que cresceu no Nordeste, pretende contribuir para alavancar o cenário do esporte aqui no Estado e na região?
MARCELO NEGRÃO: Essa é uma oportunidade excelente para a gente difundir o voleibol. Se a gente conseguir se manter na Superliga, o projeto continua para o ano que vem. O projeto continuando, a gente fazendo jogos amistosos, fazendo peneiras ao longo do Nordeste, primeiro aqui no Ceará, para tentar garimpar novos talentos, por que não? Depois jogando e fazendo amistosos pelo Nordeste mesmo, dando uma alavancada mesmo, uma força para o voleibol. Mas, para tudo isso acontecer, o projeto precisa continuar e a gente precisa se manter na Superliga.
OPINIÃO CE: Na estreia contra o SADA/Cruzeiro, vimos o Paulo Sarasate praticamente lotado e com muito apoio da torcida. Já esperava ou foi uma surpresa?
MARCELO NEGRÃO: Para mim, foi uma surpresa, surpresa muito boa, fiquei muito grato. E convoco a todos de novo sempre a comparecer nos nossos jogos, porque esses garotos precisam ver isso. O time adversário também fica impressionado com a força e a energia positiva que passa para esses meninos. E isso mostra para eles que o pessoal está apoiando e acreditando no projeto, isso é muito importante, fiquei muito grato mesmo, muito feliz de ter visto aqui o ginásio lotado. Eu só via ginásio lotado assim com grandes equipes ou com seleção brasileira. Então, é o primeiro passo que a gente está dando para fortalecer o esporte voleibol aqui no Nordeste.
OPINIÃO CE: Você era do elenco que conquistou o primeiro ouro olímpico do vôlei, marcando inclusive o ponto do título. Nas últimas Olimpíadas, a seleção masculina decepcionou e acabou ficando fora do pódio. Como você avalia o momento da seleção? Quais suas expectativas para Paris 2024?
MARCELO NEGRÃO: Eu acho que o Brasil vai estar entre os quatro. Acho que dificilmente o Brasil hoje não está mais (entre os quatro primeiros). Se manter sempre na potência mundial, como vem acontecendo, já é uma coisa rotineira para a seleção brasileira. Hoje nós temos um Centro de Treinamento em Saquarema que é referência para o Brasil e para o mundo. E dificilmente o Brasil não vai se manter os quatro. Pode não ganhar, mas vai estar fazendo uma final ou semifinal. Diria que é praticamente impossível o Brasil não chegar entre os quatro primeiros.
OPINIÃO CE: Qual a sua visão sobre o incentivo ao esporte no país?
MARCELO NEGRÃO: Isso é uma coisa que a gente do esporte sempre batalhou muito para ter mais incentivo. A gente vive em um país que é difícil o incentivo ao esporte. Tem melhorado muito, a gente sempre torce, eu, os atletas, ex-atletas, para que isso melhore. Não está na melhor condição ainda, está longe de acontecer, mas a gente só torce para que um dia melhore.
OPINIÃO CE: Como você analisa o cenário atual da política brasileira?
MARCELO NEGRÃO: Primeiro que a gente não tem muito como se posicionar diretamente, porque o esporte é muito de quem entra lá. Independente de quem entra, tem que fazer o bem pelo esporte. Então, eu só peço ao menos para a minha categoria, que é o esporte, quem entrar lá (na presidência), cuide bem do esporte e do nosso país.
