Durante as romarias, as ruas de Juazeiro do Norte se transformam num grande mercado popular. Artigos religiosos, roupas, pomadas, panelas. Uma infinidade de mercadorias é procurada. No entanto, o carro-chefe é a rapadura. O doce, tradicional em todo o Nordeste, é levado para terra do Padre Cícero por caminhões abarrotados vindos de Santa Cruz da Baixa (PE), localizado no sertão do Pajeú. “Capital Mundial da Rapadura”, a pequena cidade pernambucana, que possui cerca de 12 mil habitantes, ocupou espaço no gosto e na boca do Cariri que, por muitos anos, tinha Barbalha como referência na fabricação deste produto.
Neste final de semana, Santa Cruz da Baixa Verde celebra mais uma Feira da Rapadura, que acontece anualmente no mês de outubro. Este ano, duas atrações chamam atenção: um monumento em forma de rapadura com mais de 7 metros de altura será inaugurado na entrada da cidade e uma rapadura de 8.750 quilos, que será distribuída para a população – a tradição da rapadura gigante que começou em 1999 com o produtor Valdemir Adriano.
“Eu criei a primeira com 2 mil quilos para homenagear a chegada dos anos 2000. Na época, foi um sucesso. Repeti no ano seguinte com 2,5 mil quilos.” Na última edição, em 2019, por causa da pandemia, o doce superava o peso de cinco toneladas. Para chegar ao status de “capital da rapadura”, o município chegou a ter mais de 73 engenhos em funcionamento. A seca e a mão de obra escassa reduziram para 20 o número de unidades abertas, mas Santa Cruz da Baixa Verde segue como o principal produtor do estado.
Em média, 200 toneladas do doce são fabricadas por dia. “Já teve produtor que exportou até pro Catar”, exalta Valdemir. O grande diferencial para esse lugar de destaque, na avaliação de Valdemir, é sua geografia. Com altitude próxima dos mil mil metros acima do mar, a temperatura amena e seu solo rico em ferro, um dos mais férteis do Brasil, tornou propícia também as culturas do café e banana. A cana de açúcar é cultivada há mais de um século. “O que plantar aqui dá.”
Decadência
A 200 quilômetros de distância de Santa Cruz da Baixa está Barbalha, carinhosamente chamada de “Terra dos Verdes Canaviais.” A tradição da cana de açúcar vem desde o período colonial, mas alcançou seu auge na década de 1960, chegando a 100 engenhos em atividade. A água encontrada em abundância nas fontes que jorravam na Chapada do Araripe e deslizava pelas valas em direção aos canaviais tornou férteis as regiões de Baixio. Até o início deste século, a terra de Santo Antônio chegava a competir com Santa Cruz da Baixa Verde. “Barbalha chegou a importar rapadura de lá para cá quando a safra era escassa”, lembra Valdemir. No final do último século, veio a decadência. Dificuldade de comercialização do produto, baixa lucratividade, evasão de mão de obra, falta de recursos e melhoramento nas unidades produtivas foram alguns dos motivos da queda, aponta a economista Denize Paixão.
Entre 2002 e 2012, 13 engenhos fecharam as portas em Barbalha. A maioria era herança de algum pai ou avô, produtor de rapadura. Todos com mais de 10 anos de funcionamento. Hoje, apenas cinco estão em funcionamento — dois fabricando exclusivamente rapadura e os outros três, além do doce, fazem a cachaça, a batida e o alfenim. Todos trabalhando somente por encomenda.
