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Dia dos Professores: a arte de ajudar a construir a felicidade todos os dias

Ellen Ribeiro ostenta com alegria a vocação de ser professora. Foto: BEATRIZ BOBLITZ

Se pensarmos nas pessoas que impactam nossas vidas de forma direta desde a infância até a fase adulta, certamente passeia pela memória afetiva um ou mais professores que marcaram nosso dia a dia. Seja no primeiro contato com o alfabeto ou com a primeira fórmula de matemática, seja aprendendo uma coreografia ou um lance no futebol, é o professor que está ali para segurar as nossas mãos para dar os primeiros passos rumo ao aprendizado. O OPINIÃO CE ouviu quatro professores e professoras de diversas áreas de ensino, indo do infantil até o superior, para que contassem suas histórias.

Eles fazem parte dos mais de 100 mil professores da Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio) e da Educação Profissional Técnica de Nível Médio, e Educação de Jovens e Adultos (EJA) e Educação Especial, de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Ser professora para Ellen Ribeiro estava desde sempre como vocação em sua vida. Atualmente com 18 anos sendo professora nas redes pública e privada, a agora doutoranda em Educação tem orgulho da sua trajetória, apesar de todos os desafios que enfrentou e ainda enfrenta no magistério.

“Não saberia determinar o momento em que resolvi ser professora, pois nunca cogitei outra profissão. A cada bom professor que eu tinha, a vontade só aumentava. Há 16 anos, venho exercendo a profissão que escolhi – e que também me escolheu –, com todas as suas dores e delícias, sem ares de sacerdócio.” Consciente do meu papel na sociedade, Ellen sempre procurou ser a melhor que podia ser. “Estudar sempre e nunca esquecer o porquê de estar em sala de aula: meus alunos da escola pública”, revela a docente.

Os últimos anos têm sido bem difíceis, na avaliação da professora. As razões são inúmeras, potencializadas pela pandemia: crise econômica, luto, desemprego, baixo rendimento escolar – este rescaldo dos anos de ensino remoto. “Todas essas dificuldades desembocam na sala de aula, mas, na escola pública, elas chegam como uma avalanche, porque não temos condições de lidar com a maioria delas, e o fato de ver alunos em situação de vulnerabilidade social preocupa e entristece demais. Na contracorrente, eu e os professores à minha volta temos trabalhado ao máximo, com todas as nossas forças, para tentar reduzir esses dados, para recuperar nossos alunos.”

Crianças fora da escola

Em 2020, no início da pandemia, o Ceará registrou 135.069 crianças e adolescentes entre seis e 17 anos de idade fora da escola, de acordo com estudo do Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas (Unicef). O número veio com um acréscimo de 170% se comparado ao ano anterior (2019), quando eram 49.900 alunos em evasão escolar. No ano passado, o estudo do Unicef afunilou a faixa etária estudada, pois em 2019 foram contabilizados os alunos entre quatro e 17 anos. O Ceará é o quarto estado do Nordeste dentro dessa estatística quanto a números absolutos, atrás de Bahia, Maranhão e Rio Grande do Norte.

Contudo, é o que apresenta o menor percentual de crianças e adolescentes fora da escola, se comparado ao número total desse público no Estado — que é 1.651.979. Em relação aos dados atualizados do Ceará, a Secretária de Educação do Ceará (Seduc) não respondeu às perguntas da reportagem até o fechamento deste conteúdo. Mesmo diante de um cenário pós-pandemia e com todos os percalços que envolvem o educar, Ellen tem um sonho: que o destino dos seus alunos da periferia seja fruto de escolhas livres e não de determinações sociais.

“Gosto de pensar que eles poderão, em um futuro próximo, serem o que quiserem, sem violência, pobreza, falta de oportunidades ou perspectivas para atrapalhar. Não dá para estudar com fome, sem moradia digna, sem posto de saúde pra acudir na hora da doença, sem segurança. Mas dá, sim, para formar novos homens e mulheres, cientes de tudo que a vida pode ser, cheios de conhecimento e garra para lutar por uma nova realidade”, comenta a docente esperançosa.

Influências

Professor bilíngue do Infantil ao Ensino Médio de um colégio particular, Ricardo Ítalo começou o magistério há 14 anos, como monitor de Inglês. “Escolhi a profissão de professor influenciado bastante pelas vivências da minha mãe, minhas tias e meu irmão mais velho. Todos professores que sempre partilhavam as emoções, as felicidades e as dores da profissão, que me fizeram pensar em entrar nesse lindo ramo de atuação, capaz de gerar mudanças nos outros e em nós mesmos.”

Para Ricardo, os desafios têm um tripé: novas gerações, novos desafios, novas estruturas familiares. “Principalmente depois da pandemia, que sim, trouxe uma defasagem na aprendizagem dos alunos, mas também tolheu um pouco os sentidos do brincar, do tocar, do ‘viver o presencial’. A lógica da velocidade das conexões tecnológicas nunca será a velocidade das conexões humanas. Estas devem estar acima, porém hoje, ainda em período turbulento, vemos que algumas famílias e alunos insistem no imediatismo, na procrastinação do estudo, e na falta de tato e cuidado com os obstáculos que todos vivemos.” Para o docente, a educação se faz necessária para que a sociedade vença certas barreiras ideológicas, políticas e sociais que “a cada dia lançam desafios para, de forma mínima pelo menos, o professor possa ajudar os alunos a refletirem criticamente.”

O professor é apaixonado pela escola em que estudou a vida toda e recorda, com carinho, as memórias mais especiais. “Até hoje, guardo a foto da primeira turma que tive na escola. Era um programa no contraturno com no máximo cinco alunos. Era um céu. Outra coisa que me marcou muito foi um aluno meu tendo a conquista da aprendizagem de outra língua. Quando vemos um aluno partindo do zero, para um nível intermediário ou avançado depois de 6 anos é muito gratificante.”

Das particulares à universidade

Com 24 anos de magistério, Dênio Marques é professor de Biologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece), mas começou no magistério dando aulas particulares e em cursinhos pré-vestibulares. Na época, ele era estudante de Medicina Veterinária. “Tornei-me professor, no início, para ganhar dinheiro e pagar minhas contas. No entanto, mesmo depois de formado, o amor pela profissão surgiu e resolvi fazer, logo em seguida, a licenciatura em Ciências Biológicas na própria Uece.”

Para Marques, ser professor tira-o do automático e da rotina. “Talvez, o magistério seja a área mais interessante para o profissional tornar-se disruptivo. Creio que dificuldades existem em todas as profissões. Mas o professor acaba se adaptando às mudanças e resolvendo os problemas. Temos um exemplo recente com a pandemia. Saímos da sala de aula e mergulhamos no ensino remoto. Foi difícil, mas não deixamos nossos estudantes sem o devido apoio e feedback”, conta orgulhoso.

O docente afirma que educar tem muito de emoção e afetividade. “Certa vez, um estudante, da escola pública em que leciono me mandou uma mensagem dizendo que o conselho que dei a ele, em particular, foi uma espécie de ‘insight’ que o fez estudar mais, obter boa nota no Enem e entrar na Universidade. Esse fato me marcou muito.”

A arte de ensinar a dança

Para além dos muros das escolas tradicionais, há também quem, por amor e por esperança na arte, ensine. É o caso da professora de dança da Edisca, Katiana Pena, professora de dança artística há 14 anos. Katiana conta que a experiência de ensinar dança para crianças e jovens é emocionante. “Você encontrar aquele aluno que é mais problemático, mais carente e hoje tem uma profissão ou está na faculdade, superando os desafios da vida, é prazeroso. Eu gosto de citar muito o projeto Corpo Mudança, que são jovens que estão comigo há mais de 15 anos. Eles entraram para a escola sem expectativa de vida e, atualmente, estão na faculdade ou têm suas profissões. É muito gratificante”

A também dançarina diz que ser professor no país é algo que não estimula tanto. Em compensação, o retorno do ofício traz uma espécie de catarse. O Brasil do futuro que Katiana almeja tem fórmula certa e coreografia prontas: o investimento para o professor. Ter estrutura, oferecer apoio psicológico, apoio do sistema como o todo, para que esses professores estejam preparados para oferecer o melhor ensino. Outro ponto tem a ver com qualidade do ensino que o aluno vai receber e está atrelado ao primeiro ponto. “A escola tem que ser multicolorida e aberta. Tem que aceitar qualquer pessoa, orientar e respeitar todos os processos.”

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