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“Tanto o Brasil como o Ceará estão em risco de reintrodução da doença [pólio]”

Foto: Arquivo Pessoal

Após baixa adesão às Campanhas de Vacinação contra a Poliomielite e de Multivacinação, iniciadas em agosto em todo o País, o Estado prorrogou o prazo final para imunização dos públicos-alvo até o fim de setembro. A data de encerramento estava prevista inicialmente para 8 de agosto. O cenário é alarmante, principalmente pelo risco de reaparecimento de doenças já erradicadas. A enfermeira e epidemiologista Ana Rita Cardoso, coordenadora estadual de imunizações da Secretaria de Saúde (Sesa) do Ceará, enfatiza, em entrevista ao OPINIÃO CE, que há um risco iminente do ressurgimento de casos da ‘paralisia infantil’ caso a cobertura vacinal se mantenha baixa.

OPINIÃO CE – Qual o panorama geral do Ceará para as principais vacinas do calendário de vacinação?

Ana Rita Cardoso – O Brasil iniciou uma campanha nacional de vacinação contra a pólio e de multivacinação. Teve início no dia 8 de agosto e vai finalizar no dia 30 de setembro. O objetivo dessa campanha é vacinar, de forma indiscriminada, crianças menores de cinco anos, ou seja, todas devem receber a famosa gotinha contra a pólio. E também fazer atualização de caderneta da situação vacinal de crianças e adolescentes menores de 15 anos. Os pais devem levar seus filhos até as unidades de saúde e será verificada a sua situação vacinal para, caso tenha alguma dose, alguma vacina em atraso, que se possa fazer.

Para a poliomielite, temos aproximadamente 516 mil crianças para vacinar no estado do Ceará, menores de cinco anos de idade. Até o momento, nós já temos registro de informação de vacinação para a campanha da pólio em todos os municípios do estado, nós já aplicamos em torno de 265 mil doses. O Ceará, nesse momento, já conta com mais ou menos 52% do seu público alvo vacinado para a pólio. Em relação à campanha de multivacinação, foram aplicadas aproximadamente 139 mil doses, totalizando 75.550 crianças e adolescentes menores de cinco anos que fizeram atualizações vacinais para as diversas vacinas.

Entre o rol de vacinas que nós estamos aplicando nesse público, temos vacinas BCG, rotavírus, contra a meningocócica C, febre amarela, pentavalente, tríplice viral. Nós temos coberturas variando nessas vacinas entre 70% e 90%, aproximadamente. A febre amarela, nós temos um pouco menos, já que foi uma vacina recentemente instituída no calendário como rotina. Antigamente, era apenas realizada em quem faria viagens. Esse é o nosso panorama atualmente. Lembrando que as metas para essas vacinas, a maioria delas, com exceção de duas, é de 95% da população alvo vacinada.

OPINIÃO CE – Qual a situação da vacinação contra a poliomielite no Estado e qual a importância dessa imunização para evitar o reaparecimento da doença?

Ana Rita Cardoso – A vacinação contra a poliomielite é extremamente importante. Todas são extremamente importantes, mas nós vivemos em um cenário de uma doença que está eliminada nas Américas há muito tempo, na realidade, está eliminada na maior parte do globo, já há bastantes anos. No entanto, recentemente, pós-pandemia vem surgindo alguns casos da doença em países que não registravam casos, que já tinham a doença eliminada. Até 2020, nós tínhamos apenas dois países com circulação endêmica desse vírus. Do vírus selvagem, da poliomielite, que são Paquistão e Afeganistão. Recentemente, há relatos da doença surgindo em alguns outros países do Continente Africano.

Isso é visto com muita preocupação. Temos aí a experiência da covid, da pandemia, que hoje sabemos que as doenças podem circular pelo mundo com muita facilidade. Com este cenário, considerando que o Brasil, nos últimos três anos, não vem alcançando a meta mínima de cobertura para esta doença, o Ceará também não vem atingindo os 95% dessas crianças vacinadas, isso constitui uma grande preocupação. Não estamos atingindo as coberturas vacinais e também não estamos conseguindo responder aos indicadores de vigilância epidemiológica das paralisias flácidas agudas, que são eventos que podem, eventualmente, sinalizar uma ocorrência dessa doença. Devido a essas situações de baixas coberturas ou, pelo menos, não cumprimento da meta, tanto o Brasil como o Ceará estão em risco de reintrodução da doença a qualquer momento.

OPINIÃO CE – Como se dá essa logística até as vacinas chegarem, de fato, nos postos de saúde?

Ana Rita Cardoso – Para a realização dessas campanhas que estão ocorrendo, o Ceará distribuiu quantitativo suficiente para todas as vacinas disponibilizadas no calendário básico nacional de vacinação das crianças e adolescentes. Existe, no entanto, uma vacina que nos tem causado preocupação, que é a BCG. Ela, entre outras utilizações, é feita na criança ao nascer e esse imunobiológico vem com redução de fornecimento pelo Ministério da Saúde desde maio. Para as demais vacinas, nós temos suprido todos os municípios e, neste momento, temos no Estado apenas 13 municípios que atingiram a cobertura vacinal na campanha indiscriminada para poliomielite, ou seja, ainda temos bastante a caminhar considerando que, para o Ceará todo, nós atingimos em torno de 50% do nosso público alvo, das nossas crianças, imunizadas.

OPINIÃO CE – Quais ações são exercidas pela Sesa para estimular e acompanhar os resultados da vacinação?

Ana Rita Cardoso – A Secretaria da Saúde, por meio da nossa Célula de Imunizações, realiza diariamente o monitoramento de desempenho dessas campanhas que estão ocorrendo e divulgamos o ranking das coberturas para os gestores, tanto das regiões como os gestores municipais, para que eles possam estar munidos dessas informações e tomar decisões a partir das realidades locais vivenciadas e intensificar as ações de vacinação. Fazemos essas atualizações, se não diariamente, dia sim e dia não, para que eles possam acompanhar o avanço da campanha.

Além disso, enviamos comunicados aos municípios que têm coberturas abaixo da meta ou que ainda estão bastante longe de alcançar a meta até o dia 30 de setembro para que eles possam traçar estratégias, alcançar o público-alvo a ser vacinado. O Estado também realiza capacitações, cursos na área para equipes e disponibiliza materiais, publicação no site da Secretaria de notas técnicas, boletins e todas as orientações que são pertinentes para os profissionais poderem ter um bom desempenho e desenvolvimento tanto das campanhas como da vacinação de rotina.

Foto: Arquivo Pessoal

OPINIÃO CE – A situação da covid-19 no País parecem ter gerado, em um primeiro momento, uma expectativa positiva em relação à imunização das crianças. Apesar disso, observamos uma baixa adesão da população na Campanha deste ano, o que fez, inclusive, o Ministério prorrogá-la. O que explica, na sua avaliação, essa resistência?

Ana Rita Cardoso – De fato, a pandemia da covid-19 trouxe inúmeros prejuízos. Uma das consequências foi a redução da procura dos pais, talvez por medo de levar as crianças para o serviço de saúde, e impactou diretamente nas coberturas vacinais. Somado a isso nós tivemos uma intensificação de movimentos antivacina, de fake news, que ultimamente têm prejudicado muito os serviços de saúde, não só na vacinação. Mas existem estudos que trazem e mostram outros fatores além destes, como a questão do horário de funcionamento do serviço, que precisa ser mais flexível para atender a demanda das pessoas que trabalham. Fake news e o medo também de reações adversas, que foi algo que acabou se avolumando com a vacinação da covid, por ser uma vacinação nova, que foi algo muito falado. No entanto, gostaria de enfatizar que as vacinas são seguras. Que os pais podem e devem confiar e levar as suas crianças para vacinar, impedindo assim que elas adoeçam e que doenças já eliminadas possam retornar e afetar a nossa população e as nossas crianças.

OPINIÃO CE – Como reconquistar a confiança da população para que consigamos, no Ceará e no Brasil, atingir as metas preconizadas?

Ana Rita Cardoso – Acreditamos que por meio da divulgação de experiências exitosas obtidas através da vacinação, divulgação das evidências positivas quanto a segurança, de como elas são desenvolvidas, que são a partir de estudos criteriosos, que são essenciais para a redução das doenças imunopreveníveis, ou seja, doenças que são prevenidas se você se vacinar. Também podemos divulgar, e costumamos fazer isso, como é visível a redução da morbimortalidade infantil desde que determinadas vacinas foram implantadas no calendário nacional.

Friso que o PNI, o Programa Nacional de Imunizações, foi instituído em 1973 e é reconhecido tanto nacionalmente como internacionalmente pelo amplo elenco de imunobiológicos que oferta gratuitamente a população, com efetividade comprovada. É importante trazer esses elementos para a população e relembrar, um pouco, como nós já vivenciamos tempos sombrios de mortalidade infantil elevada na época pré-vacinas. Acreditamos que essas estratégias, de mostrar à população quais os benefícios, como as vacinas têm ajudado e evitado que crianças adoeçam e morram, e que a gente consegue visualizar, mesmo com todo o medo, hoje, na covid-19, a queda drástica que tivemos nos óbitos após a instituição da vacina. Vacinar é um ato de amor, vacinar é proteger.

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