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Na reta final da Campanha de Vacinação, Ceará vive desafio de imunização contra a pólio

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A menos de uma semana para o fim da Campanha Nacional de Vacinação para crianças com menos de cinco anos que tem como foco principal a prevenção da poliomielite, o Ceará conta com apenas 55,28% do público-alvo imunizado. A Campanha Nacional acontece em um momento em que a baixa cobertura vacinal contra a paralisia infantil tem gerado preocupação quanto ao risco de reintrodução da doença no País. No Ceará, os percentuais de proteção contra a doença estão sofrendo constantes baixas: saindo de 93%, em 2019, para 72%, em 2021.

Por conta da urgência do tema, deputados estaduais e entidades ligadas à saúde pública estão manifestando alerta para a necessidade da imunização.

A poliomielite é uma doença contagiosa causada por um vírus e que pode provocar paralisias irreversíveis e até óbitos. A infecção havia sido considerada erradicada no Brasil pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) em 1994, mas seu reaparecimento recente em muitos países acendeu um alerta entre as autoridades em saúde. Em 2022, apenas 34,4% das crianças na faixa etária indicada foram imunizadas em todo o Brasil até o momento.

A virologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) Caroline Florêncio explica que a meta que resguarda a proteção da população contra o poliovírus é de 70% de cobertura ‒ estimativa atualizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) este ano –, mas que a meta considerada “ideal” é de 95%. Ela acrescenta que a baixa na cobertura vacinal, especialmente nos últimos três anos, pode decorrer de diversos fatores. O isolamento e a crise social e econômica acentuada pela pandemia de Covid-19 seriam algumas das possibilidades.

Meta da OMS

Caroline explica que, embora a meta de 70% seja uma marca estabelecida pela OMS, ainda é uma porcentagem inferior à dos anos anteriores e que, mesmo com o Ceará ultrapassando essa marca todos os anos, a cobertura tem diminuído na maioria dos municípios cearenses. “É importante perceber que, quanto menor a meta de cobertura, pior é, pois menos pessoas estão protegidas, especialmente aquelas que vivem em locais insalubres, que favorecem o ressurgimento de doenças que, até então, estavam controladas”, aponta.

Sobre a poliomielite, ela informa que muitas mazelas sociais, aliadas à redução das vacinações, favorecem seu ressurgimento, tais como a falta de saneamento básico; a falta de alimentação básica, que leva, por exemplo, pessoas em situação de rua a buscarem restos de comida no lixo, ou ainda a falta de locais adequados para essas pessoas realizarem suas funções fisiológicas, entre outras condições. Para Caroline, essa situação de pobreza foi acentuada pela pandemia de covid-19, que afetou também a busca das pessoas por vacinas.

No Brasil, duas vacinas diferentes são oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para a imunização contra a pólio: a inativada, aplicada por injeção, e a atenuada, em gotas. A primeira deve ser aplicada nos bebês aos 2, 4 e 6 meses de idade. Já o reforço da proteção contra a doença é feito com a vacina atenuada entre os 15 e 18 meses e depois, mais uma vez, entre os 4 e 5 anos de idade.

A aplicação de imunizantes contra muitas doenças, como meningite, rubéola, caxumba e rotavírus, que há muito não são identificadas no Ceará, também está em queda, o que, para Caroline Florêncio, “abre a possibilidade de retorno de todas essas doenças”.

Surtos

O surto de sarampo ocorrido no Ceará entre 2013 e 2015, quando 916 pessoas foram diagnosticadas com a doença, pode ser usado como exemplo para mostrar como esses surtos ressurgem. Sobre o caso em questão, a pesquisadora lembra que o vírus veio de fora, há anos não era identificado no Estado e encontrou nas áreas de maior suscetibilidade ‒ locais onde a vacina não chegava ‒ o ambiente adequado para propagação. Os mais atingidos foram crianças de até nove meses, visto que a vacina é ministrada nessa idade. A virologista reforça ainda a importância da comunicação sobre essa realidade à população.

“Uma política de informação, de divulgação desses indicadores, de campanhas, de esclarecimento e de combate às fake newspode fazer com que as pessoas mudem o olhar para a vacina”, sugere.

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