As estimativas mais recentes apontam para a existência de cerca de 5 trilhões de pedaços de plásticos contaminantes em todas as regiões do mundo. De acordo com a Organização das Nações Unidas, o ser humano consome entre 74 e 121 mil partículas de microplásticos (plásticos inferiores a 5 mm) anualmente, principalmente no açúcar, sal, água e bebidas engarrafadas. Em 2020, por exemplo, foi detectada, pela primeira vez na história, a presença da substância na placenta humana. Neste ano, houve a primeira detecção de microplásticos no pulmão de uma pessoa.
O mundo vive a Década dos Oceanos (2021-2030), presentes em mais de 70% da superfície terrestre e cuja importância para manutenção da vida é inegável. Ainda assim, os mares sofrem com constantes ameaças, segundo especialistas e entidades ligadas ao meio ambiente. Um dos principais entraves é justamente a questão do microplástico, problemática contida no Eixo 1 da Década dos Oceanos, da ONU.
Em uma série especial publicada neste sábado, 2, o OPINIÃO CE aborda quais os principais desafios neste contexto e como o Ceará está contribuindo com o debate. A reportagem também apresenta 5 municípios cearenses que já incluíram a “Cultura Oceânica” em seus respectivos currículos escolares.
Pesquisa internacional
Visando entender e mitigar os impactos dessa substância no meio ambiente, a Universidade Federal do Ceará (UFC), por meio do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), representa o Brasil na ação internacional inédita (entre Brasil, Portugal e Espanha) que cruzou o oceano Atlântico e o mar Mediterrâneo para estudar a contaminação por microplásticos na água, sedimentos e organismos. O navio, com 12 cientistas – duas mestrandas da UFC -, saiu de Salvador (BA), em abril deste ano, e chegou em Cartagena, na Espanha, em maio, após quase 30 dias no mar.
Conheça o navio da expedição:
O OPINIÃO CE conversou com Yasmin Barros, mestranda em Ciências Marinhas Tropicais cuja linha de pesquisa aborda a análise, monitoramento e gestão de impactos costeiros e oceânicos, que participou da expedição. “Esse projeto se torna muito importante por existir uma grande dificuldade de fazer comparação de trabalhos quando falamos de microplástico no meio ambiente. Os autores usam metodologias diferentes. Esse trabalho acaba sendo mundial, os dados coletados, a metodologia é a mesma e a facilidade em comparar os resultados é maior. Terá uma credibilidade maior”, aponta.
De acordo com ela, há registros de estudos sobre a substância desde a década de 70 e suas consequências ao ecossistema marinho vêm sendo destacadas. “Já existem trabalhos que indicam a influência negativa do microplástico no ciclo alimentar de alguns organismo, podendo causar até morte por inanição. Ele também tem uma capacidade de adsorção e absorção, o que faz com que tenha a facilidade de aderir a uma superfície, que entra no ciclo alimentar dos organismos”.
Expedição
O objetivo da expedição foi fazer coleta de água, sedimento e arrasto de redes (de pesca) durante a travessia do Oceano Atlântico. “Tivemos alguns problemas com equipamentos. Conseguimos fazer coleta de água e de três arrastos. A coleta de água era feita por meio de uma bomba que puxava a água da subsuperfície enquanto o navio estava andando”, explica Yasmin Barros. Além dela, participou a também mestranda na UFC, Ravena Santiago. A partir da coleta, as amostras serão analisadas na Universidade Autónoma de Barcelona, na Espanha, e também em Portugal.
Além da expedição, o estudo já realiza, desde 2019, coletas nos estuários dos três países para investigar o impacto dos microplásticos no Oceano Atlântico e no Mar Mediterrâneo. Em Fortaleza, são coletados materiais do estuário do rio Cocó. “As coletas das regiões estuarinas de cada país obedecem uma sazonalidade. No Brasil, são os períodos de seca, transição seca-chuva e o período chuvoso”, explica Yasmin Barros.

